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Entrevista da Monja Coen na UnB


Fábio Dantas

Entrevista da Monja Coen na Universidade de Brasília-UnB

Em prosseguimento às atividades do projeto “Pontos de Visão”, a entrevistada desta vez foi a Monja Coen, Primaz Fundadora da Comunidade Zen-Budista em São Paulo. O evento ocorreu no anfiteatro nove do Instituto Central de Ciências, Ala sul, da Universidade de Brasília com um atraso de quase uma hora em virtude do vôo da Monja. Como estava sentado na segunda fileira de cadeira, a Monja antes de ser chamada a compor à mesa aguardou numa cadeira próxima a mim. Então, ao ver-me com o uniforme do Niten, Coen dirigiu-me um cumprimento de cabeça e um sorriso como se estivesse reconhecendo a Instituição que eu representava ali. A apresentadora dirigiu a Sensei a seguinte questão: “Como foi a trajetória de sua vida até chegar a ser monja? Coen , antes de responder a pergunta, convidou os presentes a realizarem um minuto de Zazen: “Sentem-se sem apoiar no encosto da cadeira; os pés ligeiramente afastados; as mãos formam o “mudra cósmico” (o dorso da mão esquerda sobre a palma da mão direita, os dedos polegares tocam-se levemente e os demais sobrepostos ao seu correspondente); a coluna bem ereta e atenção na respiração”. Em outro momento, a monja – citando um mestre japonês – disse-nos: “A respiração consciente é o início da meditação”.
Findo o Zazen, Coen voltou à indagação com a seguinte resposta: “Comecei fazendo Zazen. Como tinha que entrar às sete horas no Jornal, acordava bem cedo e às cinco horas já estava meditando com um mestre. Depois do trabalho, voltava para mais uma seção de zazen”. Notou que, com a prática, deu-se o despertamento da percepção interior de inúmeras energias. Com isso, foi possível investigar as impressões deixadas pelos vários acontecimentos que teceram sua vida. “Não há nada do que reclamar em nossa vida. O que ocorreu não pode ser refeito. E, não podemos nos descuidar do presente, pois é agora que a vida acontece. Afinal, somos produtos inacabados. Estamos em constante transformação”. Continuou: “Tudo é transitório e está interligado como os fios de uma rede. Então é preciso cuidado não só com nossos gestos, mas também com nossos pensamentos. E, nesse sentido, o Zazen é uma poderosa ferramenta”. Na meditação, vai-se aos poucos inquirindo-se sobre o que é a vida, a morte, quem é Deus, e outras questões fundamentais a existência humana. Coen observou que, no Caminho Zen, busca-se transcender os conceitos/as idéias para o verdadeiro Encontro, só possível pela experiência.
Assim, no Zen, “vamos nos desligando de certas coisas e nos ligando a outras, mais essenciais. E, deste modo, refinando-nos, entendendo melhor a Vida e o Universo para que nossa atuação também seja melhor”. Mencionou o mestre zen vietnamita, Tchih Nah, que certa vez mostrou uma folha branca de papel a uma pessoa e disse-lhe: “Aqui, há uma nuvem! Concordo que seja mais fácil para um poeta ver isto. Mas repare que sem nuvem não haveria chuva e sem chuva tampouco árvores. E esta cadeia se estende ainda mais, pois a árvore para ser convertida em papel, primeiramente foi abatida por um lenhador que utilizou para isto um instrumento cortante de ferro...”. “O que deduzimos disto?” indaga a monja. “É que em uma folha de papel há muitos elementos não-papel e assim é com nosso ‘eu’, repleto de elementos não-eu. É preciso saber reconhecê-los”. E prosseguiu os ensinamentos...

Fábio Dantas


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