Eu disse ontem: "Várias lutas polêmicas ocorreram no campeonato, a ponto de deixar a torcida coreana irada."(30 jul - Honra ao Mérito em Seul)
Uma delas aconteceu nas semifinais, quando os juízes* deram a vitória, na minha opinião, e na de muitos ali presentes, duvidosa, ao japonês.
Nesta luta, o atleta coreano* manteve-se imóvel durante aproximadamente 4 minutos no meio da quadra, estupefato pela decisão, resistindo a encerrar a luta e sair da quadra.
A torcida coreana manifestou sua indignação perante o veredito esbravejando, gritando e atirando latas de cerveja no meio da quadra.
Logo após, como que num manifesto nacionalista, levantaram-se de suas arquibancadas e deixaram o ginásio completamente vazio.
Na semifinal , não tinha ninguém para assisitir. Ginásio vazio. Só nós estrangeiros. Imagine você, numa final, dentro de um ginásio cheio, e que num picar de olhos se visse no vazio!
A revista Kendo Nippon, na época, publicou esta foto com as legendas:
"Os ensinamentos que a torcida coreana nos ensinou"
E, "Torcida coreana não esconde a sua inconformidade".
Entendo que a postura do atleta e a inconformidade da torcida, manifesta daquela forma, não foi a ideal.
Mas, por outro lado, compreendo a indignação de um atleta que, depois de treinar exaustivamente, durante anos, perde de forma injusta.
Para fechar este assunto um tanto conturbado, torno a dizer o que falei anteontem no Café:
"Mas uma vez que entrou para o torneio não se deve contestar as regras. E uma vez que entrou para o kendo, e o kendo é feito por todos (ou ninguém?), todo men* pode virar um men."
Anote o que estou falando: já chegamos num ponto que daqui a alguns anos, vai existir 2 "kendos": o do Japão, e o da Coréia.
Se é que já não existe...
"Depois de perder para Hayashi, Kim não aceita sair da quadra"Seul, 1988, eu, capitão da equipe brasileira.
Naquela ocasião, o Brasil se classificou em terceiro lugar, e a Coréia começava a despontar como uma das maiores (se não a maior) potências no kendo.
Várias lutas polêmicas ocorreram no campeonato, a ponto de deixar a torcida coreana irada.
Foi o dia em que tudo parou.
Conversas a parte, tivemos mais duas medalhas, além do 3o lugar:
Uma medalha Honra ao Mérito para mim, e outra para o meu irmão, Roberto.
É... Seul.
Não dá para esquecer.

Me informaram que encontraram um vídeo meu na internet de quase 20 anos atrás.
Palco: Torneio Mundial em Seul, 1988
A TV coreana cobriu este combate , por ser o mais longo e acirrado feito nas disputas por equipes.
Este adversário já tinha vencido o vice-campeão Kamei em um combate meio que polêmico, pois os seus golpes não se ajustavam às regras de kendo, como não levantar os braços para golpear a cabeça ou golpear com as laterais da espada, e ainda levou o japonês à derrota.
Os professores diziam que aquilo não era kendo. E que os juízes não souberam avaliar a luta. Em torneios mundiais, quando um japonês luta com um coreano, não pode ter nenhum juiz que seja do Japão ou Coréia, o que, inevitavelmente dá lugar a juízes menos experientes (ou com outra visão???).
Polêmico ou não, Kamei, a quem tenho muita admiração e respeito, perdeu.
Mas uma vez que entrou para o torneio não se deve contestar as regras. E uma vez que entrou para o kendo, e o kendo é feito por todos ( ou ninguém?), todo men* pode virar um men.
Bem, acho que você vai entender melhor o que eu estou dizendo vendo o vídeo.
E como nesta longa estrada, algumas vezes a gente vence e outras a gente perde, esta eu perdi.
Mas foi sem medo. Com coragem. Com honra, e me rendeu o prêmio Fighting Spirit.
O Honra ao Mérito.
Enquanto ainda damos uma olhada no vídeo,
está confirmado:
dias 11 e 12 de outubro
o Torneio por Equipes de Kobudô
será no Rio de Janeiro!
E, para fechar o evento "Lapidar a espada com o zen", deixo aqui um reprise do dia .
Bom para refletir neste final de semana.
Gasho*...
*gasho=cumprimento budista
Alguns não entendem o porquê de eu me interessar tanto por estilos e ensinamentos antigos, a ponto de deixar toda uma carreira do Kendo.
Ou seja, por que me dedicar mais tempo ao kobudo, a tradição guerreira dos samurais, em relação ao Kendo.
Ainda hoje, professores no Japão insistem para que eu deixe de lado isto e que eu treine para prestar o 8º dan, pois segundo eles, teria condições de ser aprovado.
Verdade ou não, tenho mais prazer em estudar a tradição guerreira dos samurais, alguns com quase 700 anos de história.
Por palavras me seria difícil de lhe explicar, mas quem sabe, as palavras (e que sabias palavras) de Monja Coen , proferidas na semana
passada (18 jul) possam elucidar:
"Eu agradeço muito a todos vocês, principalmente a Kishikawa Sensei, que nós nos conhecemos já há alguns anos quando eu cheguei aqui no Brasil e o Instituto Niten fez um pouquinho de práticas lá no templo Bushinji.
Foi uma época muito agradável para todos nós e eu fico muito feliz de ver como tem crescido, como tem se espalhado pelo Brasil todo.
Eu vou em lugares diferentes, cidades diferentes, e eu sempre tenho o cumprimento de Kishikawa Sensei, porque os alunos dele são um pouquinho dele e eu o encontro em tantos lugares.
Isso me deixa muito feliz, porque vocês estão no Caminho. E que esse Caminho se multiplique e se espalhe por todo o Brasil, América do Sul e todos os lugares onde o Sensei está levando o Instituto Niten e esse estilo KIR de práticas que realmente eu acho que resgata - alguma coisa que alguém falou - esse Karma ancestral dos nossos Samurais que se, por acaso - que julgamento somos nós para fazer [quem somos nós para julgar?] - se houve algum Karma negativo, com certeza ele está se tornando um Karma muito positivo: para cada um de vocês; para sua 'ancestralidade'; e para sua descendência.
Que nós possamos juntos fazer um mundo de Paz.
Muito obrigada."
A humanidade, desde os primórdios, tem procurado eternizar os momentos efêmeros de sua vida.
No momento em que entramos em contato com estes ensinamentos antigos, sentimo-nos em contato com estes Karmas ancestrais.
O presente se conecta com o passado e dá ao futuro uma vida com sentido.
Uma vida eterna.
Os semelhantes buscam os semelhantes
e que cada um viva em Paz.
Muito obrigado

Hoje trago a vocês alguns trechos da palestra com nossa amiga, a Monja Coen Murayama e algumas palavras que tenho dito aqui no café:
"Cortar a delusão e trazer a verdade(27fev de 2007). Este é o espírito do Zazen.
Quando nós nos entregamos é que a prática começa a se manifestar.
No treinamento buscamos a exaustão(17abr)"

O brilho do suor nas lâminas é o que faz a espada ser lapidada.
Monja Coen e Niten.
Falamos a mesma língua
Já considerado parte do treinamento no Niten, a palestra de monja Coen Murayama, nossa amiga e apoiadora, como sempre, trouxe maior luz e sabedoria a todos os nossos alunos.
Precedida por um treinamento exaustivo de kenjutsu, disse em sua palestra, que ficou surpresa ao ver tanta adrenalina e garra dos alunos, equiparando-os a guerreiros num campo de batalha.
Conceitos importantes como a aniquilação do ego com a prática da espada, o não apego a questões de ordem material ou intelectual, reforçaram os princípios que tenho insistido a todos: a nossa prática deve ser, na sua essência, a busca da Verdade.
Desta vez, com o tema "Lapidar a Espada com o Zen", monja Coen não só respondeu a muitas dúvidas que rodeiam o consciente de muitos, mas me reforçou o que eu já imaginava:
Que as dúvidas não se respondem com o intelecto.
Que a espada se brilha com o suor.
