
Deixo aqui palavras de um aluno que esteve há poucos dias aqui sob o meu treinamento e que quem sabe, sirva de reflexo e até a resposta no seu Caminho.
Lei com atenção , pois em cada frase há um significado profundo que somente os mais próximos e aqueles que já estiveram aqui comigo poderão entender:
"Meu ingresso no Niten se deu por razões que hoje entendo serem equivocadas: buscava simplesmente um esporte com um “algo mais”, sem o tédio de uma academia. Hoje, após concluído meu shugyo, confirmei a convicção que esse diferencial é muito mais importante do que a simples atividade física.
No mesmo molde que aconteceu com o Gashuku que lhe antecedeu, meu shugyo - e é necessário individualizar, pois cada shugyo é uma experiência única - merece receber o predicativo “de Katas”. Nas palavras do Sensei, isso não quer dizer que ele tenha sido sem combate e, muito menos, que ele tenha sido fácil. A falha na luta leva a derrota ou a morte, mas a falha nos Katas do Bushido é muito mais grave, pois leva a perda da honra. Considerando que o kenjutsu e a luta de bogu é meu ponto mais forte, o natural é que eu fosse apertado pelas minhas fraquezas, seja no Iaijutsu, no Jojutsu, nos Katas do Niten Ichi Ryu ou nos Katas do Bushido. Isso contribuiu para uma experiências mais rica e requereu uma atenção redobrada para as lições transmitidas com sutileza. Fui ao shugyo pronto para morrer e, ao contrário, vivi intensamente.
A decisão de realizar um shugyo já havia sido tomada há algum tempo, motivada pelo desejo de me colocar à prova, de sair da zona de conforto e por querer me imergir nos Katas do Bushido. Durante o shugyo não é necessário que você transporte as lições do Niten para sua vida quotidiana: o Niten se torna seu dia-a-dia. O Caminho tornou ainda mais imperativo que eu embarcasse para São Paulo, como forma de me purificar dos vícios e maneirismos adquiridos no treinamento até aquele momento. As privações dessa rotina limparam corpo e espírito das máculas e deixaram-me pronto para iniciar um novo ciclo, da forma correta.
Muito me foi ensinado acerca dos katas e das sequências, dos detalhes e dos pequenos segredos que fazem a diferença entre o bom e o excelente. Esse conhecimento me foi entregue de coração aberto e imbuído de um sentimento verdadeiro de compaixão, daqueles que desejam o fortalecimento dos companheiros de espada. Entretanto, as mais importantes lições foram roubadas. Elas foram transmitidas sem palavras, através de uma ação, de uma
postura, de uma atitude, que não tinham o objetivo de ensinar, mas de fazer o correto. Foram absorvidas por se traduzirem em exemplos.
Ponto marcante dessa jornada foi o sofrimento. Esse é um fator inevitável na guerra. A exaustão física, o sono, a preguiça, a saudade de casa, são todos fatores que minam sua determinação em cumprir com o dever. Cercado, o espírito não vê alternativa a endurecer. É nesse momento, longe dos confortos e dos mimos, que se vê o real valor das coisas. Isolado no shugyo, percebe-se que o quão fúteis são os bens a que nos agarramos obstinadamente e estamos prontos a realmente apreciar um ato de amizade. Depois de uma semana - só uma semana! - em shugyo, a camaradagem dos colegas de Santos me pareceu um cortejo digno de reis e me tocou profundamente, o que poderia ser de outra forma se eu ainda trajasse a indiferença rotineira. Busquei libertar-me das armadilhas do ego e descobrir a profundidade da minha ignorância e insensibilidade.
A convivência com o Sensei, os Senpais e os colegas da ADM foram essenciais para que eu começasse a entender a verdade . Ninguém fraqueja no trabalho hercúleo de manter o Niten funcionando e crescendo. A todos eu deixo meus mais sinceros agradecimentos. Arigato goizamashita.
Especialmente, deixo meu carinho ao Sensei, que abriu suas portas e demonstrou que nunca esteve isolado no alto de uma montanha, ao Senpai Adeval, que soube sorrir na hora de sorrir e apertar na hora de apertar, a Dalva e ao Artur, que sussurram algumas das dicas mais salvadoras."
É preciso mudar!
É preciso acordar!
E o tempo passa...

Ontem tive de ir comprar medicamentos na madrugada. Eram uma e meia.
Tentei estacionar em uma das lojas da Drogasil, mas haviam 2 carros para 3 vagas, pois um deles havia estacionado de maneira "folgada".Tentei.
Tive então de deixar na calçada . Na rua. Sem iluminação. Perigo.
Reclamei a farmacêutica responsável (uma japonesinha) ao que recebi a segunda resposta:
- Não tenho como fazer nada, pois são clientes. Se eu falar eles vão fazer reclamação.
Falei então com o caixa e obtive a seguinte resposta:
- Como é noite , não temos gente para tomar conta do estacionamento. O Sr. liga durante o dia para o nosso gerente.
Estacionamento? Para 3 vagas?!!!
A verdade é que não se encontram mais samurais. Guerreiros que assumem e pegam para si a responsabilidade de resolver as coisas.
Um aluno já havia me dito nesta semana:
-Sensei, a verdade é que ninguém quer assumir nada.

Não . Não vou dizer nada.
Só vou deixar estas palavras que escrevi no Shin Hagakure:
"As pessoas sempre adiam seus projetos por falta de tempo. Estão sempre dizendo:
-Quando entrar de ferias, farei isto, farei aquilo.
Chegam as ferias, mas nada acontece.
Na verdade, conseguimos realizar mais feitos quando estamos em guerra."
Férias...

Kendo Kata.
Ou em sua maneira mais formal, Nippon Kendo Kata.
Me perguntaram o porque de introduzi-lo e somente agora no Niten.
Uma vez 7ºdan kyoshi de kendo e jurado da banca examinadora para a mais alta graduação no Brasil( 7o dan), seria um desperdício eu não passá-los aos meus alunos.
Os mais novos devem desconhecer também que, por varias vezes, atuei como auxiliar nos seminários de kendo kata.
Mas o passado não importa.
O fato é que combinei com o mestre Baba , em sua recente visita, que iria transmitir no Niten os fundamentos do kendo kata.
Mas sem vincular aos exames de graduação. Aprender por aprender.
Apenas em busca do conhecimento...é o Niten Kendo Kata.
No vídeo "SOL-Radiante" , temos um exemplo do que chamo de "não perder tempo".
Ha muitas pessoas neste mundo que pensam, reclamam e adiam seu compromissos para o futuro ou não colocam a energia necessária para buscar os seus sonhos.
No caso de Sol, lembro-me que antes mesmo de ser aluna , no primeiro dia que veio ao Niten, desceu a serra (Serra do Mar) conosco para o evento do Centenário da Imigração Japonesa , realizado pelo Niten no porto de Santos.
Sol é aluna somente há 1 ano e o resultado desta dedicação, aliada a uma pitada de orientação é o resultado que podemos conferir no vídeo. E ainda: a maior parte do ano esteve lá , no tal de Arraial d'Ajuda.
Não perca tempo, pois nem o Sol nem a Lua esperam pelos nossos dias.
E, confira bem o que estou falando:
Um aluno me escreveu ontem que apesar de estar com o corpo dolorido apos o Gashuku (23jun - 9armas), estava muito contente e feliz por ter vencido esta etapa inicial.
Ei-lo:
"Queria dizer que foi uma honra participar desse Gashuku de Katas em São José dos Campos.
Foi o meu 1º Gashuku e superou as minhas expectativas, é até difícil descrever em palavras o sentimento que ficou após esses 3 dias de treino.
(...)
Tiveram momentos difíceis: particularmente ter ouvido do Sensei: “você não tem ki* ...” não foi nada fácil. Ouvir algo que no fundo você já sabe, mas não quer admitir...
O que eu posso dizer é que após ingressar no Niten as mudanças já começaram a ocorrer. É uma luta diária para superar isso. Realmente o seu maior inimigo pode ser você mesmo."

Recebi esta mensagem de uma das participantes do Gashuku (23jun - 9armas)
"Achei incrível os comentários do Sensei sobre as lutas de kenjutsu dos Senpai* mais graduados. Realmente tem coisas que só praticando e vitaminando o espírito para poder praticar na luta. Aparentemente o que é só um esforço físico, muito precisa do nosso auto-conhecimento sobre nossas próprias emoções e pensamentos, não só para detectarmos os problemas a tempo, mas para ter a energia de superá-los e velocidade de reação, sem esquecer de usar a cabeça. É preciso enxergar à frente, se bem o compreendi, um bom estrategista o faz bem. Bom, ainda não sou muito sagaz, espero que treinando possa um dia alcançar isso, o Sensei deixou clara a direção. Os Momentos de Ouro, realmente foram dourados, todos eles, todas as palavras e demonstrações!/
Fico sempre muito feliz ao revê-lo,Sensei. No Gashuku, mesmo tendo as intempéries, sinto um enorme prazer de estar com o grupo, de compartilhar o sentimento de que há algo especial entre todos nós que nos une. Além dos risos, trocas e oportunidades de ser útil e generosos uns com os outros. É algo sutil e de valor subjetivo, o que nem todos que observam de fora compreendem.
Domo arigato gosaimashita pela atenção especial na Kusarigama*. Continuaremos treinando para honrar nosso compromisso.
Domo arigato gosaimashita por tudo!"
Hoje quero lhe mostrar as palavras de um aluno que veio a SP para shugyo* e participou do Gashuku (23jun - 9armas)
"Shugyo
O shugyo não começa quando chegamos à ADM*, e sim quando resolvemos nos colocar a prova... Várias perguntas vêm à cabeça, a primeira com certeza é: Por que eu quero sofrer? A resposta é simples, por que estou cansado de ser acomodado, não quero mais ser simplesmente mais um que aproveita as oportunidades, e sim aquele que cria as oportunidades.
......
Fui armado, em certo ponto até "preparado", para o que podia enfrentar tanto no físico quanto no espírito, minha guarda estava alta, estava sendo cético em relação às atitudes e intenções, tanto minhas quanto daqueles que me cercam. Precisava ter a certeza, mas qual certeza? A que eu sempre acreditei ou aquela que eu poderia presenciar? E para que ter tanta certeza assim? Por que tudo tem que ser tanto preto e branco? Tenho a tola mania de sempre analisar, planejar e criar estratégias para as coisas, e assim eu deixo de aproveitar a essência, o momento e a oportunidade de errar.
Só existe um tempo no qual podemos influenciar o presente, o passado não nos pertence mais e o futuro está muito além das nossas capacidades. Esse é o espírito do samurai, o guerreiro que vive para estar preparado para quando morrer.
Enquanto eu tentava "esconder" os meus sentimentos, eu estava sendo lido como um livro, página por página, não julgado e sim lido cuidadosamente, nas minhas atitudes, na minha fala, no meu olhar, no meu espírito e na minha vontade... E isso foi o mais surpreendente, enquanto eu achava que estava no "controle" dos meus desejos, percebi que os fantasmas do meu lado me denunciavam e apontavam meus erros.
Mesmo assim as pessoas que estavam ali na minha frente me guiavam, abriram os seus corações e permitiram que eu pudesse ver, sem tentar influenciar, achar o que eu tinha ido buscar, achar o meu "tesouro sagrado". Abrir as portas da nossa casa não é fácil, só convidamos aqueles em que acreditamos e quando não temos sujeira por debaixo do tapete, muitas vezes precisamos testar e ser testados, só assim o verdadeiro espírito aparece.
De nada adianta ler e ouvir, se a gente não vive a experiência. Estar presente é ver, tocar, degustar, cheirar e ouvir o momento. Aprender da fonte, sem filtros ou atalhos. Não existe nada mais sério do que a relação de um mestre e seu aprendiz, e a confiança demora uma vida para ser formada, mas acaba em uma respiração.
Usando uma história zen, posso dizer que a minha xícara de chá foi esvaziada. Não tenho mais medo, verdades, conceitos, histórias e vontades egoístas. Agora eu quero aprender, uma linha reta. Como aprendi, ter uma vida de várias escolhas nos traz sofrimento, existem momentos que devemos não ter escolha e ser o que acreditamos, nem sempre fazer o correto é o mais fácil!
Sobre o treino físico? Sim você sofre, seu corpo fica doendo, o sono carrega para bem longe a sua vontade, os hematomas ficam evidentes, sua mente se cansa, a fome bate à sua porta e o desejo de fugir fica corroendo todo o seu ser... Mas isso não é nada quando comparo aos momentos únicos que tive as lutas incríveis que pude travar com grandes guerreiros, mesmo sendo jogado no chão, prensado na parede, levantado a alturas impossível com um simples golpe, sentir na pele, literalmente, como é sentir seu corpo ser dilacerado, minado por vários cortes. Sim, a palavra certa aqui é corte, tive que aprender a esquecer que está usando um pedaço de bambu nas mãos, e sim uma katana que tem vida.
Aprender que no iai* tudo é a questão do tempo de uma respiração e que a katana nada mais é do que a extensão do seu corpo e vontade.
O que levo do meu shugyo se resume a palavra retidão, segue duas frases que explicam o meu sentimento sobre essa palavra:
"Nenhum outro sentimento pode trazer mais alegria e felicidade à alma do homem do que a certeza de estar fazendo tudo para ser reto."
(autor desconhecido)
"Aquele que reprime os ímpetos da cólera estará a coberto de qualquer perigo. É conveniente saber sufocar, ou ao menos moderar a cólera, o temor, a tristeza, a alegria, e outras agitações profundas que podem alterar aretidão da alma."
(Confúcio)
Domo arigato gozaimashita ,Sensei, por ter aberto a sua casa para que eu pudesse treinar eaprender.
Domo arigato por todos os Senpais que me ensinaram as técnicas e que meajudaram a superar o meu limite moral.
Sayonara!"
Temrinado o Gashuku de Katas (19jun - 9 armas) em São José dos Campos, recebi estas impressões do aluno que participou com o seu filho:
"Gashuko 1 / X
1 ........ Primeiro, primeira reflexão
/ ........ De
X ........ Muitos, valor indeterminado
Meu primeiro Gashuko:
Comentário do Sensei:
-Você relembrou a infância!
Hai sensei,
- a infância (mesa grande e muuuita alegria)
- a adolescência (descoberta da amizade)
- a faculdade (as olimpíadas entre engenharias, alojamentos, beber muito entre amigos)
- a maturidade (a responsabilidade de aplicar e repassar os nossos valores no dia a dia)
Domo arigato gozaimshitá, Sensei!
F.O."
Ao ser perguntado por um de seus colegas se com este Gashuku havia aprendido mais algum kata novo, este respondeu:
- Mas que kata novo! Que nada! Descobri depois deste Gashuku é que eu não sei fazer nem o primeiro kata!!!


