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Café com o Sensei

Pensamentos e comentários do Sensei


sexta, 03-jul-2009

“Acordei!”

Deixo aqui palavras de um aluno que esteve há poucos dias aqui sob o meu treinamento e que quem sabe, sirva de reflexo e até a resposta no seu Caminho.
Lei com atenção , pois em cada frase há um significado profundo que somente os mais próximos e aqueles que já estiveram aqui comigo poderão entender:

"Meu ingresso no Niten se deu por razões que hoje entendo serem equivocadas: buscava simplesmente um esporte com um “algo mais”, sem o tédio de uma academia. Hoje, após concluído meu shugyo, confirmei a convicção que esse diferencial é muito mais importante do que a simples atividade física.

No mesmo molde que aconteceu com o Gashuku que lhe antecedeu, meu shugyo - e é necessário individualizar, pois cada shugyo é uma experiência única - merece receber o predicativo “de Katas”. Nas palavras do Sensei, isso não quer dizer que ele tenha sido sem combate e, muito menos, que ele tenha sido fácil. A falha na luta leva a derrota ou a morte, mas a falha nos Katas do Bushido é muito mais grave, pois leva a perda da honra. Considerando que o kenjutsu e a luta de bogu é meu ponto mais forte, o natural é que eu fosse apertado pelas minhas fraquezas, seja no Iaijutsu, no Jojutsu, nos Katas do Niten Ichi Ryu ou nos Katas do Bushido. Isso contribuiu para uma experiências mais rica e requereu uma atenção redobrada para as lições transmitidas com sutileza. Fui ao shugyo pronto para morrer e, ao contrário, vivi intensamente.

A decisão de realizar um shugyo já havia sido tomada há algum tempo, motivada pelo desejo de me colocar à prova, de sair da zona de conforto e por querer me imergir nos Katas do Bushido. Durante o shugyo não é necessário que você transporte as lições do Niten para sua vida quotidiana: o Niten se torna seu dia-a-dia. O Caminho tornou ainda mais imperativo que eu embarcasse para São Paulo, como forma de me purificar dos vícios e maneirismos adquiridos no treinamento até aquele momento. As privações dessa rotina limparam corpo e espírito das máculas e deixaram-me pronto para iniciar um novo ciclo, da forma correta.

Muito me foi ensinado acerca dos katas e das sequências, dos detalhes e dos pequenos segredos que fazem a diferença entre o bom e o excelente. Esse conhecimento me foi entregue de coração aberto e imbuído de um sentimento verdadeiro de compaixão, daqueles que desejam o fortalecimento dos companheiros de espada. Entretanto, as mais importantes lições foram roubadas. Elas foram transmitidas sem palavras, através de uma ação, de uma
postura, de uma atitude, que não tinham o objetivo de ensinar, mas de fazer o correto. Foram absorvidas por se traduzirem em exemplos.

Ponto marcante dessa jornada foi o sofrimento. Esse é um fator inevitável na guerra. A exaustão física, o sono, a preguiça, a saudade de casa, são todos fatores que minam sua determinação em cumprir com o dever. Cercado, o espírito não vê alternativa a endurecer. É nesse momento, longe dos confortos e dos mimos, que se vê o real valor das coisas. Isolado no shugyo, percebe-se que o quão fúteis são os bens a que nos agarramos obstinadamente e estamos prontos a realmente apreciar um ato de amizade. Depois de uma semana - só uma semana! - em shugyo, a camaradagem dos colegas de Santos me pareceu um cortejo digno de reis e me tocou profundamente, o que poderia ser de outra forma se eu ainda trajasse a indiferença rotineira. Busquei libertar-me das armadilhas do ego e descobrir a profundidade da minha ignorância e insensibilidade.

A convivência com o Sensei, os Senpais e os colegas da ADM foram essenciais para que eu começasse a entender a verdade . Ninguém fraqueja no trabalho hercúleo de manter o Niten funcionando e crescendo. A todos eu deixo meus mais sinceros agradecimentos. Arigato goizamashita.
Especialmente, deixo meu carinho ao Sensei, que abriu suas portas e demonstrou que nunca esteve isolado no alto de uma montanha, ao Senpai Adeval, que soube sorrir na hora de sorrir e apertar na hora de apertar, a Dalva e ao Artur, que sussurram algumas das dicas mais salvadoras."


É preciso mudar!
É preciso acordar!
E o tempo passa...

quinta, 02-jul-2009

Madrugada na Farmácia

Ontem tive de ir comprar medicamentos na madrugada. Eram uma e meia.
Tentei estacionar em uma das lojas da Drogasil, mas haviam 2 carros para 3 vagas, pois um deles havia estacionado de maneira "folgada".Tentei.
Tive então de deixar na calçada . Na rua. Sem iluminação. Perigo.
Reclamei a farmacêutica responsável (uma japonesinha) ao que recebi a segunda resposta:
- Não tenho como fazer nada, pois são clientes. Se eu falar eles vão fazer reclamação.
Falei então com o caixa e obtive a seguinte resposta:
- Como é noite , não temos gente para tomar conta do estacionamento. O Sr. liga durante o dia para o nosso gerente.
Estacionamento? Para 3 vagas?!!!
A verdade é que não se encontram mais samurais. Guerreiros que assumem e pegam para si a responsabilidade de resolver as coisas.
Um aluno já havia me dito nesta semana:
-Sensei, a verdade é que ninguém quer assumir nada.

quarta, 01-jul-2009

Férias...

Não . Não vou dizer nada.
Só vou deixar estas palavras que escrevi no Shin Hagakure:
"As pessoas sempre adiam seus projetos por falta de tempo. Estão sempre dizendo:
-Quando entrar de ferias, farei isto, farei aquilo.
Chegam as ferias, mas nada acontece.
Na verdade, conseguimos realizar mais feitos quando estamos em guerra.
"

Férias...

terça, 30-jun-2009

Niten Kendo Kata

Kendo Kata.
Ou em sua maneira mais formal, Nippon Kendo Kata.
Me perguntaram o porque de introduzi-lo e somente agora no Niten.
Uma vez 7ºdan kyoshi de kendo e jurado da banca examinadora para a mais alta graduação no Brasil( 7o dan), seria um desperdício eu não passá-los aos meus alunos.
Os mais novos devem desconhecer também que, por varias vezes, atuei como auxiliar nos seminários de kendo kata.
Mas o passado não importa.
O fato é que combinei com o mestre Baba , em sua recente visita, que iria transmitir no Niten os fundamentos do kendo kata.
Mas sem vincular aos exames de graduação. Aprender por aprender.
Apenas em busca do conhecimento...é o Niten Kendo Kata.



Niten Kendo Kata treinado de forma inédita no Gashuku de São José dos Campos(21 de junho)

segunda, 29-jun-2009

Sol, 1 ano só

No vídeo "SOL-Radiante" , temos um exemplo do que chamo de "não perder tempo".
Ha muitas pessoas neste mundo que pensam, reclamam e adiam seu compromissos para o futuro ou não colocam a energia necessária para buscar os seus sonhos.
No caso de Sol, lembro-me que antes mesmo de ser aluna , no primeiro dia que veio ao Niten, desceu a serra (Serra do Mar) conosco para o evento do Centenário da Imigração Japonesa , realizado pelo Niten no porto de Santos.
Sol é aluna somente há 1 ano e o resultado desta dedicação, aliada a uma pitada de orientação é o resultado que podemos conferir no vídeo. E ainda: a maior parte do ano esteve lá , no tal de Arraial d'Ajuda.
Não perca tempo, pois nem o Sol nem a Lua esperam pelos nossos dias.
E, confira bem o que estou falando:

sexta, 26-jun-2009

Não tem KI

Um aluno me escreveu ontem que apesar de estar com o corpo dolorido apos o Gashuku (23jun - 9armas), estava muito contente e feliz por ter vencido esta etapa inicial.
Ei-lo:


"Queria dizer que foi uma honra participar desse Gashuku de Katas em São José dos Campos.
Foi o meu 1º Gashuku e superou as minhas expectativas, é até difícil descrever em palavras o sentimento que ficou após esses 3 dias de treino.

(...)

Tiveram momentos difíceis: particularmente ter ouvido do Sensei: “você não tem ki* ...” não foi nada fácil. Ouvir algo que no fundo você já sabe, mas não quer admitir...

O que eu posso dizer é que após ingressar no Niten as mudanças já começaram a ocorrer. É uma luta diária para superar isso. Realmente o seu maior inimigo pode ser você mesmo."

A minha resposta:

- Fico contente com as dores.
Vou continuar te batendo mais!

* KI= energia, fibra, garra



Gashuku: Sensei ministrou o Nippon Kendo Kata

quinta, 25-jun-2009

Kusarigama - corrente que une guerreiros

Recebi esta mensagem de uma das participantes do Gashuku (23jun - 9armas)

"Achei incrível os comentários do Sensei sobre as lutas de kenjutsu dos Senpai* mais graduados. Realmente tem coisas que só praticando e vitaminando o espírito para poder praticar na luta. Aparentemente o que é só um esforço físico, muito precisa do nosso auto-conhecimento sobre nossas próprias emoções e pensamentos, não só para detectarmos os problemas a tempo, mas para ter a energia de superá-los e velocidade de reação, sem esquecer de usar a cabeça. É preciso enxergar à frente, se bem o compreendi, um bom estrategista o faz bem. Bom, ainda não sou muito sagaz, espero que treinando possa um dia alcançar isso, o Sensei deixou clara a direção. Os Momentos de Ouro, realmente foram dourados, todos eles, todas as palavras e demonstrações!/
Fico sempre muito feliz ao revê-lo,Sensei. No Gashuku, mesmo tendo as intempéries, sinto um enorme prazer de estar com o grupo, de compartilhar o sentimento de que há algo especial entre todos nós que nos une. Além dos risos, trocas e oportunidades de ser útil e generosos uns com os outros. É algo sutil e de valor subjetivo, o que nem todos que observam de fora compreendem.

Domo arigato gosaimashita pela atenção especial na Kusarigama*. Continuaremos treinando para honrar nosso compromisso.
Domo arigato gosaimashita por tudo!"



*Senpais=nome que se dá aos veteranos dendo do Instituto Niten
*kusarigama=arma dos samurais composta de foice e corrente com projetil de ferro em sua ponta


quarta, 24-jun-2009

Aprender em linha reta

Hoje quero lhe mostrar as palavras de um aluno que veio a SP para shugyo* e participou do Gashuku (23jun - 9armas)

"Shugyo

O shugyo não começa quando chegamos à ADM*, e sim quando resolvemos nos colocar a prova... Várias perguntas vêm à cabeça, a primeira com certeza é: Por que eu quero sofrer? A resposta é simples, por que estou cansado de ser acomodado, não quero mais ser simplesmente mais um que aproveita as oportunidades, e sim aquele que cria as oportunidades.
......
Fui armado, em certo ponto até "preparado", para o que podia enfrentar tanto no físico quanto no espírito, minha guarda estava alta, estava sendo cético em relação às atitudes e intenções, tanto minhas quanto daqueles que me cercam. Precisava ter a certeza, mas qual certeza? A que eu sempre acreditei ou aquela que eu poderia presenciar? E para que ter tanta certeza assim? Por que tudo tem que ser tanto preto e branco? Tenho a tola mania de sempre analisar, planejar e criar estratégias para as coisas, e assim eu deixo de aproveitar a essência, o momento e a oportunidade de errar.

Só existe um tempo no qual podemos influenciar o presente, o passado não nos pertence mais e o futuro está muito além das nossas capacidades. Esse é o espírito do samurai, o guerreiro que vive para estar preparado para quando morrer.

Enquanto eu tentava "esconder" os meus sentimentos, eu estava sendo lido como um livro, página por página, não julgado e sim lido cuidadosamente, nas minhas atitudes, na minha fala, no meu olhar, no meu espírito e na minha vontade... E isso foi o mais surpreendente, enquanto eu achava que estava no "controle" dos meus desejos, percebi que os fantasmas do meu lado me denunciavam e apontavam meus erros.

Mesmo assim as pessoas que estavam ali na minha frente me guiavam, abriram os seus corações e permitiram que eu pudesse ver, sem tentar influenciar, achar o que eu tinha ido buscar, achar o meu "tesouro sagrado". Abrir as portas da nossa casa não é fácil, só convidamos aqueles em que acreditamos e quando não temos sujeira por debaixo do tapete, muitas vezes precisamos testar e ser testados, só assim o verdadeiro espírito aparece.

De nada adianta ler e ouvir, se a gente não vive a experiência. Estar presente é ver, tocar, degustar, cheirar e ouvir o momento. Aprender da fonte, sem filtros ou atalhos. Não existe nada mais sério do que a relação de um mestre e seu aprendiz, e a confiança demora uma vida para ser formada, mas acaba em uma respiração.

Usando uma história zen, posso dizer que a minha xícara de chá foi esvaziada. Não tenho mais medo, verdades, conceitos, histórias e vontades egoístas. Agora eu quero aprender, uma linha reta. Como aprendi, ter uma vida de várias escolhas nos traz sofrimento, existem momentos que devemos não ter escolha e ser o que acreditamos, nem sempre fazer o correto é o mais fácil!

Sobre o treino físico? Sim você sofre, seu corpo fica doendo, o sono carrega para bem longe a sua vontade, os hematomas ficam evidentes, sua mente se cansa, a fome bate à sua porta e o desejo de fugir fica corroendo todo o seu ser... Mas isso não é nada quando comparo aos momentos únicos que tive as lutas incríveis que pude travar com grandes guerreiros, mesmo sendo jogado no chão, prensado na parede, levantado a alturas impossível com um simples golpe, sentir na pele, literalmente, como é sentir seu corpo ser dilacerado, minado por vários cortes. Sim, a palavra certa aqui é corte, tive que aprender a esquecer que está usando um pedaço de bambu nas mãos, e sim uma katana que tem vida.

Aprender que no iai* tudo é a questão do tempo de uma respiração e que a katana nada mais é do que a extensão do seu corpo e vontade.

O que levo do meu shugyo se resume a palavra retidão, segue duas frases que explicam o meu sentimento sobre essa palavra:

"Nenhum outro sentimento pode trazer mais alegria e felicidade à alma do homem do que a certeza de estar fazendo tudo para ser reto."
(autor desconhecido)

"Aquele que reprime os ímpetos da cólera estará a coberto de qualquer perigo. É conveniente saber sufocar, ou ao menos moderar a cólera, o temor, a tristeza, a alegria, e outras agitações profundas que podem alterar aretidão da alma."
(Confúcio)

Domo arigato gozaimashita ,Sensei, por ter aberto a sua casa para que eu pudesse treinar eaprender.
Domo arigato por todos os Senpais que me ensinaram as técnicas e que meajudaram a superar o meu limite moral.

Sayonara!
"


* shugyo= treino recluso em São Paulo
*A DM = adminsitração central do Niten
* iai = arte de desembainhar espada de metal


terça, 23-jun-2009

Gashuku 1/X

Temrinado o Gashuku de Katas (19jun - 9 armas) em São José dos Campos, recebi estas impressões do aluno que participou com o seu filho:

"Gashuko 1 / X
1 ........ Primeiro, primeira reflexão
/ ........ De
X ........ Muitos, valor indeterminado

Meu primeiro Gashuko:
Comentário do Sensei:
-Você relembrou a infância!
Hai sensei,
- a infância (mesa grande e muuuita alegria)
- a adolescência (descoberta da amizade)
- a faculdade (as olimpíadas entre engenharias, alojamentos, beber muito entre amigos)
- a maturidade (a responsabilidade de aplicar e repassar os nossos valores no dia a dia)
Domo arigato gozaimshitá, Sensei!
F.O.
"

Ao ser perguntado por um de seus colegas se com este Gashuku havia aprendido mais algum kata novo, este respondeu:
- Mas que kata novo! Que nada! Descobri depois deste Gashuku é que eu não sei fazer nem o primeiro kata!!!


"a infância: mesa grande e muuuita alegria"


segunda, 22-jun-2009

Sol

Pessoal, hoje deixo aqui o vídeo da nossa aluna Sol:


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