
Há algum tempo, durante um gyaku-kesagiri acelerado, a mão esquerda bobeou e não girou totalmente no tempo correto, e como a mão direita prosseguiu até o fim do corte, a conseqüência foi inexorável: quebrei meu saya... surgiu a ferida. Na hora, não se tem muito o que fazer. Continua-se treinando, com cuidado, e com a culpa te perseguindo a cada novo corte, lembrando que a ferida continua ali, viva e pulsante.
Mandei o saya para ser consertado, e por um tempo, vali-me de uma iaito diferente da minha. E sofri... não só porque a nova espada tem peso, envergadura, tamanho e empunhadura diferentes, mas porque me parecia que eu estava treinando com o espírito dos outros, não com o meu.
Neste sábado, meu saya voltou do reparo. Meu Sempai, com tom pesaroso, disse-me que o reparador, com receio de danificar o verniz que recobre todo o saya, não lixou o local em que foi feito o reparo, caso contrário, o saya teria ficado como se novo fosse. Porém, ao contrário do que eu mesmo esperava, isso me deixou muito feliz!
A cicatriz do saya não me deixa esquecer daquela ferida, nem do erro naquele corte e, como ela fica exatamente onde a mão esquerda fica, no momento que antecede o saque, ela me lembra, a cada novo saque, da incansável busca por sempre fazer o que é certo, sob pena de ganhar mais uma cicatriz.
Não sei o quanto disso pode ser verdadeiro, ou mesmo se é válida a comparação, mas esse “acidente” me alertou para as feridas que surgem quando agimos sem sincronia entre o espírito (espada) e o corpo (saya), e do peso extra que carregamos em razão disso.
Simões
Instituto Niten Curitiba