Além do corpo físico
Nonato Ferreira
Há uma semana que o sempai Tamar está aqui conosco..
Não sei ao certo em que ponto exatamente, ou qual músculo ou articulação identificar que dói em meu corpo. Mas percebo no movimento, cauteloso e manso que as minhas pernas desencadeiam, no meu passo cuidadoso, a dor presente, porque até a sola do meu pé está doída. Como se diz aqui por estas bandas do Ceará – “meu pé está trilhado”, e essa condição me faz manso e suave ao caminhar.
Será que é por conta desse treinamento intensivo e disciplinar que os orientais expressam em seus corpos esse andar manso, como se estivessem em constante observação sinestésica corporal? Parece até como se já estivesse cravada no inconsciente coletiva desse povo essa expressão corporal.
Sinto que existe um momento em que o corpo não mais obedece ao entusiasmo do treino, e é aí que entra uma outra programação até então desconhecida conscientemente. A mente deixa de julgar: bom, Ruim, Cansativo, Não agüento mais, Não vai dar, Estou doido, Etc. etc, e coisa e tal...
É um detalhe que longe do ego vem à tona, emerge e se materializa. Um detalhe até então não percebido, apesar de óbvio não revelado. Um segredo escondido a sete chaves. Guardado apenas para aqueles que persistem, que vão além do limite do corpo e da mente. O mestre sabe desse caminho, mas não adiante falar. É preciso trilha-lo.
A sensação é que todas as forças estão se exaurindo e que o treinamento vai nos levar a exaustão física e psicológica. Mas o corpo reage, quero dizer: algo impulsiona o corpo a reagir. A espada agora tem uma outra conotação nas mãos, as suas raízes estão além do punho e dos antebraços, parece estar (a espada) entranhada já próxima ao peito literalmente falando. Sinto seu reflexo já próximo ao abdômen e do sentimento que permeia a minha presença. Não consigo ainda mensurar com palavras nem quantificar a intensidade desse sentimento, mas percebo sua presença acompanhando-me nos gestos mais simples e corriqueiros, tais como: respirar, olhar, ouvir, tocar (tato), se alimentar, tomar banho, olhar-se no espelho.
Sou grato: Ao sempai Tamar pelas orientações dadas e disponibilidade sempre presente, a repetir, explicar, exemplificar... Aos irmãos de espada – senpais, Sampaio, Felipe e ao Michel e Adriano, Tassia e Ramon...
Agora entendo o porquê, de apesar de estar com o pé machucado a ponto de ser notório no andar (sempai Tamar) e de estar com o joelho dolorido e o corpo sinalizado pela ponta da shinai (sempai Sampaio), eles ainda encontram tempo, energia e vitalidade para treinarem 4:00h da manhã com o Augusto. Quem está de fora e não vivencia nem se prepara para ser submetido a esse tipo de treinamento, não agüenta, ou melhor será que agüenta? De uma coisa eu sei, esse treinamento não é para novatos. Esses caras parecem querer se matar. Matar sim, mas, matar o ego, o limite, a preguiça, o cansaço, a dor. Por dentro do men, algumas vezes no fervor do combate, a sensação de asfixia e desmaio se mostram presentes. Por baixo do kotê uma dor constante e latente é guardada e disfarçada nas costuras do acolchoado da luva. O impacto causado pela shinai quando beira ligeiramente além da zona de absorção do dô faz confundir o kiai com o “ai” numa fusão cúmplice entre os dois combatentes.
Que o grande Espírito aceite esse nosso sacrifício e nos prepare e confie ao Caminho da Verdade.
Somos gratos ao sensei Jorge Kishikawa e aos seus ancestrais, e a todos que fazem a ADM.
Nonato Ferreira,
Aluno do Niten Fortaleza