
Matéria Publicada no Jornal O Estado de Minas em 12 de Outubro de 2009 - Caderno Bem Viver
Na Praça JK, em Belo Horizonte, até quem corre concentrado na pista de cooper, direciona o olhar para a cena que parece fugir à época. Com seus uniformes de batalha, o kimono e o hakama, e uma verdadeira armadura, o bogu, alunos da unidade mineira do Instituto Niten treinam os passos do kenjutsu, a arte de combate com espadas criada pelos samurais no Japão feudal. Transmitindo os ensinamentos dos antigos guerreiros nos dias atuais, a técnica mantém viva uma tradição iniciada há 600 anos e que tem despertado cada vez mais o interesse do brasileiro.
Hoje, os conceitos são ensinados por meio do método KIR, que combinas o treinamento da espada samurai e a filosofia do Bushido, o código de honra desses guerreiros. Entre os benefícios, está a mudança de postura em situações adversas e a aplicação prática da estratégia nos negócios, além da disciplina, autocontrole, equilíbrio entre a razão e emoção, concentração, autoconfiança, redução de estresse, emagrecimento e manutenção da saúde. A metodologia do Instituto Niten é fruto da forte influência de seu fundador, o Sensei Jorge Kishikawa, sua experiência de mais de 10 anos como médico das Forças Armadas Brasileiras e, principalmente, com o convívio com mestres samurais e o treinamento da espada.
Os fundamentos estão no livro Shin Hagakure, em que Kishikawa faz uma nova leitura do código de ética samurai, adaptada aos dias atuais, com o objetivo de despertar o espírito guerreiro das pessoas e transmitir os valores desses homens. “ Adaptei o Bushido para que pudesse ser aprendido pelos brasileiros, já que é uma filosofia de um outro mundo e de uma época.”
Mateus Tolentino, de 22 anos, é um desses alunos. O estudante praticou várias artes marciais até descobrir o Instituto Niten. Caratê, judô, jiu-jitsu e tae-kwon-do foram então substituídos por tês modalidades da espada samurai – kenjutsu, iaijutsu, o jojutsu -, praticadas há quase quatro anos, Na balança, pesou exatamente a chance de reunir a cultura japonesa, a filosofia e as técnicas da espada samurai. “ No kenjutsu é aplicada toda a filosofia oriental. Não vemos só a parte técnica, mas os princípios e valores samurais, como disciplina, atenção, coragem, honra e iniciativa, que se aplicam na vida como um todo.”
Foi vendo o interesse do amigo que Laura Marinho se juntou ao grupo. A estudante de psicologia, de 23, gostava de assistir aos treinos de Mateus, porque, só de ver, já sentia que tinha uma posição mais firme. “ Não sabia o meu limite, aonde podia chegar. O kenjutsu me mostrou uma nova forma de encarar a vida, me ensinou que devo buscar uma força interna para lidar com obstáculos e superar limites.”
O servidor do Tribunal de Justiça de Minas Gerais Alessandro Fonseca, de 24, que pratica a arte há mais de dois anos e meio, acha que o grande diferencial do kenjutsu é exatamente essa parte filosófica. “ No começo, muita gente entra procurando atividade física com um algo a mais. Mas, logo descobrem que esse algo mas é o principal, mais importante que a atividade física.”
Para Jorge Kishikawa, isso é ser um guerreiro moderno, que pratica a espada, cultiva os valores do Bushido e os aplica em seu dia a dia. “ Um samurai moderno é aquele que encara a vida como um guerreiro. Ele toma todas as suas decisões tendo como bússola a filosofia samurai, carregando consigo os valores da honra, lealdade, coragem, gratidão, compaixão, polidez”, defende o Sensei.
Treinamento – Todo treino é fundamentado no pensamento “ a pena e a espada caminhando juntas.” Além de buscar o aperfeiçoamento técnico da espada, os samurais se dedicavam às artes e à cultura, porque precisavam de conhecimento para a administração pública. Cada aula dura cerca de duas horas, divididas entre alongamento, o treino em si e os moentos de ouro, quando se estuda a filosofia samurai japonesa. Para as práticas de combate, os alunos têm armaduras de proteção e espadas de bambu. O combate segue da mesma forma que na época dos samurais.
Mas é no momento de ouro que o Sensei faz a ponte entre o ensinamento técnico- filosófico e o cotidiano, contando aos alunos suas experiências ao longo dos 40 anos de treino, os combates no Brasil e no Japão e o convívio com os últimos samurais vivos. Na ausência do Sensei, a reflexão é conduzida pelo Sempai, o professor veterano, como no caso de Belo Horizonte. “ É um desafia e uma responsabilidade. Tenho que compreender os ensinamentos do Sensei e trazer o melhor para os alunos”, comenta Adeval Santana, coordenador da unidade de BH, que promove aulas semanais no ginásio do Colégio Sagrado Coração de Jesus.

Instituto Niten Belo Horizonte