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Shugyo de Fonseca

Relato do aluno Fonseca sobre Shugyo realizado em Junho de 2009


Alessandro Fonseca

Meu ingresso no Niten se deu por razões que hoje entendo
serem equivocadas: buscava simplesmente um esporte com um
“algo mais”, sem o tédio de uma academia. Hoje,
após concluído meu shugyo, confirmei a convicção que esse
diferencial é muito mais importante do que a simples
atividade física.

No mesmo molde que aconteceu com o Gashuku que lhe
antecedeu, meu shugyo - e é necessário individualizar,
pois cada shugyo é uma experiência única - merece receber
o predicativo “de Katas”. Nas palavras do Sensei, isso
não quer dizer que ele tenha sido sem combate e, muito
menos, que ele tenha sido fácil. A falha na luta leva a derrota ou
a morte, mas a falha nos Katas do Bushido é muito mais grave,
pois leva a perda da honra. Considerando que o
kenjutsu e a luta de bogu é meu ponto mais forte, o
natural é que eu fosse apertado pelas minhas fraquezas,
seja no Iaijutsu, no Jojutsu, nos Katas do Niten Ichi Ryu
ou nos Katas do Bushido. Isso contribuiu para uma
experiências mais rica e requereu uma atenção redobrada
para as lições transmitidas com sutileza. Fui ao shugyo pronto
para morrer e, ao contrário, vivi intensamente.

A decisão de realizar um shugyo já havia sido tomada há
algum tempo, motivada pelo desejo de me colocar à prova,
de sair da zona de conforto e por querer me imergir nos
Katas do Bushido. Durante o shugyo não é necessário que
você transporte as lições do Niten para sua vida
quotidiana: o Niten se torna seu dia-a-dia. O Caminho
tornou ainda mais imperativo que eu embarcasse para São
Paulo, como forma de me purificar dos vícios e
maneirismos adquiridos no treinamento até aquele momento.
As privações dessa rotina limparam corpo e espírito das
máculas e deixaram-me pronto para iniciar um novo ciclo, da
forma correta.

Muito me foi ensinado acerca dos katas e das sequências,
dos detalhes e dos pequenos segredos que fazem a
diferença entre o bom e o excelente. Esse conhecimento me
foi entregue de coração aberto e imbuído de um sentimento
verdadeiro de compaixão, daqueles que desejam o
fortalecimento dos companheiros de espada. Entretanto, as
mais importantes lições foram roubadas. Elas foram
transmitidas sem palavras, através de uma ação, de uma
postura, de uma atitude, que não tinham o objetivo de
ensinar, mas de fazer o correto. Foram absorvidas por se
traduzirem em exemplos.

Ponto marcante dessa jornada foi o sofrimento. Esse é um
fator inevitável na guerra. A exaustão física, o sono,
a preguiça, a saudade de casa, são todos
fatores que minam sua determinação em cumprir com o
dever. Cercado, o espírito não vê alternativa a
endurecer. É nesse momento, longe dos confortos e dos
mimos, que se vê o real valor das coisas. Isolado no
shugyo, percebe-se que o quão fúteis são os bens a que
nos agarramos obstinadamente e estamos prontos a
realmente apreciar um ato de amizade. Depois de uma
semana - só uma semana! - em shugyo, a camaradagem dos
colegas de Santos me pareceu um cotejo digno de reis e me
tocou profundamente, o que poderia ser de outra forma se
eu ainda trajasse a indiferença rotineira. Busquei libertar-me
das armadilhas do ego e descobrir a profundidade da minha
ignorância e insensibilidade.

A convivência com o Sensei, os Senpais e os colegas da
ADM foram essenciais para que eu começasse a entender a
verdade . Ninguém fraqueja no trabalho hercúleo de
manter o Niten funcionando e crescendo. A todos eu deixo
meus mais sinceros agradecimentos. Arigato goizamashita.
Especialmente, deixo meu carinho ao Sensei, que abriu
suas portas e demonstrou que nunca esteve isolado no alto de
uma montanha, ao Senpai Adeval, que soube sorrir na hora
e sorrir e apertar na hora de apertar, a Dalva e ao
Artur, que sussurram algumas das dicas mais salvadoras."


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