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Aluno Bolivar em Shugyo em São Paulo - Junho 2009

Aprender em Linha Reta

Relato sobre shugyo do Aluno Bolivar


O sughyo não começa quando chegamos à ADM, e sim quando resolvemos nos
colocar a prova... Várias perguntas vêm à cabeça, a primeira com certeza é:
Por que eu quero sofrer? A resposta é simples, por que estou cansado de ser
acomodado, não quero mais ser simplesmente mais um que aproveita as
oportunidades, e sim aquele que cria as oportunidades.

Fui ao sughyo com a cabeça cheia e o espírito carregado, não do dia a dia ou
de problemas, mas sim de dúvidas, questionamentos e para colocar a minha
moral em teste. Será que sou digno do que tenho? Do que ofereço? Minhas
palavras e ações são sinceras? Por que sempre acho que tenho que sofrer em
prol do coletivo? E a mais importante, sou digno de confiança?

Fui armado, em certo ponto até "preparado", para o que podia enfrentar tanto
no físico quanto no espírito, minha guarda estava alta, estava sendo cético
em relação às atitudes e intenções, tanto minhas quanto daqueles que me
cercam. Precisava ter a certeza, mas qual certeza? A que eu sempre acreditei
ou aquela que eu poderia presenciar? E para que ter tanta certeza assim? Por
que tudo tem que ser tanto preto e branco? Tenho a tola mania de sempre
analisar, planejar e criar estratégias para as coisas, e assim eu deixo de
aproveitar a essência, o momento e a oportunidade de errar.

Só existe um tempo no qual podemos influenciar o presente, o passado não nos
pertence mais e o futuro está muito além das nossas capacidades. Esse é o
espírito do samurai, o guerreiro que vive para estar preparado para quando
morrer.

Enquanto eu tentava "esconder" os meus sentimentos, eu estava sendo lido
como um livro, página por página, não julgado e sim lido cuidadosamente, nas
minhas atitudes, na minha fala, no meu olhar, no meu espírito e na minha
vontade... E isso foi o mais surpreendente, enquanto eu achava que estava no
"controle" dos meus desejos, percebi que os fantasmas do meu lado me
denunciavam e apontavam meus erros.

Mesmo assim as pessoas que estavam ali na minha frente me guiavam, abriram
os seus corações e permitiram que eu pudesse ver, sem tentar influenciar,
achar o que eu tinha ido buscar, achar o meu "tesouro sagrado". Abrir as
portas da nossa casa não é fácil, só convidamos aqueles em que acreditamos e
quando não temos sujeira por debaixo do tapete, muitas vezes precisamos
testar e ser testados, só assim o verdadeiro espírito aparece.

De nada adianta ler e ouvir, se a gente não vive a experiência. Estar
presente é ver, tocar, degustar, cheirar e ouvir o momento. Aprender da
fonte, sem filtros ou atalhos. Não existe nada mais sério do que a relação
de um mestre e seu aprendiz, e a confiança demora uma vida para ser formada,
mas acaba em uma respiração.

Usando uma história zen, posso dizer que a minha xícara de chá foi
esvaziada. Não tenho mais medo, verdades, conceitos, histórias e vontades
egoístas. Agora eu quero aprender, uma linha reta. Como aprendi, ter uma
vida de várias escolhas nos traz sofrimento, existem momentos que devemos
não ter escolha e ser o que acreditamos, nem sempre fazer o correto é o mais
fácil!

Sobre o treino físico? Sim você sofre, seu corpo fica doendo, o sono carrega
para bem longe a sua vontade, os hematomas ficam evidentes, sua mente se
cansa, a fome bate à sua porta e o desejo de fugir fica corroendo todo o seu
ser... Mas isso não é nada quando comparo aos momentos únicos que tive as
lutas incríveis que pude travar com grandes guerreiros, mesmo sendo jogado
no chão, prensado na parede, levantado a alturas impossível com um simples
golpe, sentir na pele, literalmente, como é sentir seu corpo ser dilacerado,
minado por vários cortes. Sim, a palavra certa aqui é corte, tive que
aprender a esquecer que está usando um pedaço de bambu nas mãos, e sim uma
katana que tem vida.

Aprender que no iai tudo é a questão do tempo de uma respiração e que a
katana nada mais é do que a extensão do seu corpo e vontade.

O que levo do meu sughyo se resume a palavra retidão, segue duas frases que
explicam o meu sentimento sobre essa palavra:

"Nenhum outro sentimento pode trazer mais alegria e felicidade à alma do
homem do que a certeza de estar fazendo tudo para ser reto."
(autor desconhecido)

"Aquele que reprime os ímpetos da cólera estará a coberto de qualquer
perigo. É conveniente saber sufocar, ou ao menos moderar a cólera, o temor,
a tristeza, a alegria, e outras agitações profundas que podem alterar a
retidão da alma."
(Confúcio)
Domo arigato gozaimashita ,Sensei, por ter aberto a sua casa para que eu pudesse treinar e aprender.
Domo arigato por todos os Senpais que me ensinaram as técnicas e que me ajudaram a superar o meu limite moral.

Sayonara!"


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