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A Maior Batalha


Gustavo Giri

Konnichi-wa o-mina-san.


meu nome é Gustavo, e sou aluno da Unidade Florianópolis desde 2002. Estou afastado dos treinos desde Novembro do ano passado. Este relato traz a razão deste afastamento temporário, e embora não seja agradável, senti-me no dever de escrevê-lo.

Inicialmente, a notícia veio como um "do", um perfeito do, vindo não se sabe de onde, com todo aquele barulhão e a sensação de impacto sofrido no bogu. E junto, só a a incredulidade:

"Mas como este do passou? Eu nem vi. Mas não é possível... Eu estava concentrado, minha postura estava correta, meu kamae, o maai... Tudo estava certo, como pode ter passado?"

E realmente ele passou. O do de que estou falando, foi o diagnóstico de câncer em minha esposa. Um "alien", inserido no peito da pessoa que mais amo no mundo, vindo não se sabe de onde, com todo aquele impacto... Infelizmente "real", como o corte de uma katana verdadeira.

E junto com ele veio a dor, a sensação de impotência, de não saber o que fazer... Senti-me como que de mãos atadas, vendo minha esposa indefesa levar men após men, kote após kote, do após do. E eu, impedido de vestir meu bogu, pegar a shinai, e enfrentar o inimigo no lugar dela...

O Niten me preparou para muitas batalhas, desde que fosse eu a combatê-las. E eu não sabia se estava preparado para enfrentar a maior batalha de minha vida, sabendo que na verdade ela não era minha.

E então abri mão de minha vida. A partir de então eu não mais existi. Todo meu ser estava dedicado a fazer minha esposa viver. Inspirei fundo, concentrei-me na postura, puxei um kiai sincero, lá do fundo, e ataquei. E isso inclui brigar com muita gente. Com médicos, laboratórios, patologistas... gente que deveria saber o que estava fazendo, mas nem sempre sabia. Inclui buscar esclarecimentos, não aceitar um laudo que não parecesse confiável e correr atrás de outro para fazer uma contra-prova... Inclui pesquisar muito até encontrar a combinação perfeita entre a cidade, a clínica e o médico mais confiável. E confiança em estranhos nessas horas é algo muito, muito difícil.

E ainda há os gastos astronômicos, as viagens longas atrás de alternativas, os mêses dormindo em casas que não são suas, e também abdicar aos treinos... Em troca, a longa espera em "milhões" de salas de espera (com milhões de revistas Caras e Veja), uma batelada de medicamentos, exames de sangue semanais (não podemos mais nem ver agulhas!), a tristeza de ver que a quimioterapia por vezes parece que faz mais mal do que a doença em si...

Mas inclui também buscar o apoio da família e dos amigos, tentar trazer para perto as pessoas que vão fazer bem... Inclui fazer com que a "paciente" mantesse firme, confiante, de cabeça erguida. Uma mulher de samurai.

E às vezes, quando ela fraqueja, estar lá, do seu lado, para "gritar" com ela, do mesmo modo que aprendi do Senpai Sandro: "Postura, vamos! Arrume o kamae. Ganbatte!! Mais Kiai, Kiai, Kiiiaaaaaaiiiii!!!!"

E só à noite, no chuveiro, bem escondido, me permitir chorar algumas vezes. Porque tudo isso ainda incluía o medo da morte. Não a MINHA morte, eu me enxergava samurai, sem temer a minha morte, mas como não temer a DELA?

Este não é um relato triste, não estou me lamuriando. Afinal ainda tento ser samurai. Estou escrevendo para contar que ontem, dia 16 de Março, minha esposa enfrentou a quinta sessão de quimioterapia, de um total de 8, a cada 21 dias. Depois ainda teremos de passar por algumas sessões de radioterapia. Mas os exames mostram que estamos vencendo a batalha: o tumor está regredindo, e em breve voltaremos a viver nossas vidas.

Que não serão as mesmas vidas. A proximidade com a morte nos ensinou muitas coisas sobre como viver, e certamente muitas coisas em nossas vidas não serão as mesmas.

Outras porém, serão. E uma delas será prosseguir no Niten. Porque acredito ser este um bom caminho, acredito nos valores morais e filosóficos do Niten, porque valorizo (e agradeço) o esforço do Senpai Sandro em me transmitir boas coisas. Porque sei das boas energias que meus colegas nos passaram durante esta fase. Porque aprendi muita coisa sobre viver com o Sensei Jorge, pessoalmente ou através do Shin-Hagakure.

Porque sei, hoje eu sei, que o Niten, juntamente com meus pais, irmãos e amigos, não me prepararam para enfrentar somente minhas batalhas, mas também para ajudar nas batalhas dos que me são caros.

Doomo-arigatou-gozaimashita a todos...

Giri.


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