
Hoje é dia dez de abril de 2008.
Há cinco anos e cinco dias eu havia decidido dar um passo importante em minha vida, mas não sabia disso.
Era sábado e eu havia acordado ás sete horas, pois teria que chegar pelo menos com meia hora de antecedência no workshop de Kenjutsu, promovido pelo Instituto Cultural Niten em Ribeirão Preto.
Muitas coisas passavam pela minha cabeça. Eu acabara de me formar e ingressar no mestrado. Foram tempos difíceis. Tinha vindo de o que poderíamos chamar de um “insucesso profissional” e estava recomeçando; recém contratado na Unaerp como professor e com um projeto de consultoria correndo paralelo, para reforçar minha renda e tentar me posicionar profissionalmente. Eu sempre quis ser professor e tinha abandonado esse sonho há muito tempo.
Enfim, cheguei meio acanhado e vi umas pessoas reunidas em frente á academia. Estavam animados e bem alegres. A academia não estava aberta ainda – isso era um problema do local, sempre a recepcionista atrasava ou chegava em cima da hora, fato que nos fez sair de lá alguns meses depois; afinal, horário tem que ser cumprido. Confesso que quando me aproximei, passei pelo grupo sem parar. Medo. Ansiedade. Dúvida. Não sei realmente o que ocorreu. Já havia entrado em contato com o Niten por e-mail fazia mais de um ano, em 2001 ou 2002 eu acho. Já tinha visto o Sensei na revista Kiai divulgando o que viria a ser conhecido como o método KIR. Tanta vontade e a oportunidade finalmente havia se apresentado. Mas quantas lutas eu já tinha feito? Jiu Jitsu, Karate, Capoeira, Boxe e nunca me encontrei. Nem como guerreiro, nem como filósofo ou como pessoa. Respirar fundo. Buscar o foco.
- Bom dia Sensei, meu nome é Donegá!
- Ohayo Gozaimassu Donegá, seja muito bem vindo! Sou o sempai Mauro!
- Sempai?
- Hai! Sensei só temos o Sensei! Rsrs
Assim entrei para o Niten. Há cinco anos e cinco dias.
Tudo, absolutamente tudo na minha vida mudou.
Empenho, disciplina, foco, objetividade, educação. Não que eu não os tivesse. Mas o direcionamento, a lapidação, o incentivo recebido foram cruciais na minha formação pessoal e profissional.
Foi sacrificado. O que eu ganhava mal dava pra me manter basicamente. E com 29 anos seria complicado pedir pro meu pai pagar. Mas pensei: deixarei de fazer algumas coisas e vou investir no meu aperfeiçoamento. Se preciso for, andaria a pé para economizar. E foi o que fiz. Resultado? Só cresci e ascendi. Crescimento pessoal gera o crescimento profissional, e a conseqüência é a melhoria financeira.
Aprendi que quem quer treinar, treina. Não há desculpa. Não há empecilho. Não há dor. Não há fome ou sono.
Houve dias de dúvida? Claro.
Houve dias de tempestades? Terríveis que castigam a alma.
Houve ervas daninhas? Qual o jardim Zen que uma vez sem o cultivo adequando não cria ervas daninhas?
Sou humano. O ser humano que não sente, deixa de ser humano. O ser humano que não pensa, deixa de ser humano.
Mas sentimentos e pensamentos vêm e vão. Nossa essência permanece.
E a essência é que segue em frente.
Cinco anos e cinco dias.
Quantas pessoas maravilhosas conheci.
Quantos torneios.
Quantos eventos.
Quantas lutas.
Quantas vitórias. Só vitórias. Sempre vence aquele que aprende algo com a derrota.
Quantas broncas dos Sempais.
Quantas shinaizadas do Sensei.
Quantas risadas.
Cinco anos e cinco dias.
Muitos desafios foram superados. O ciclo de dificuldades, de altos e baixos sempre acontece no caminho de nossa evolução.
Mas aprendi a esperar o momento certo para aplicar o golpe.
Colocar as energias como num duelo de vida ou morte.
Hoje posso dizer que me vejo sem dar aulas.
Hoje posso dizer que me vejo sem minha empresa de consultoria.
Mas não consigo me desviar do caminho da espada.
Domo Arigato Gozaimashitá ao Sensei.
Domo Arigato Gozaimashitá aos Sempais.
Domo Arigato Gozaimashitá aa toda família Niten.
Donegá. Primeiro Aluno da Unidade Ribeirão Preto.
Cinco anos da Unidade Ribeirão
Desde de criança eu tenho admiração pela cultura japonesa e seus ensinamentos, e, quando criança e grande parte de minha adolescência eu pratiquei artes marciais, mas nunca obtendo total satisfação nem atingindo o potencial desejado. Quando eu tomei conhecimento sobre a arte da espada, sobre o Instituto Niten e sobre a filosofia que era ensinada, ainda não havia uma unidade na cidade onde eu morava e tentei entrar em contato com a administração do instituto, onde fui muito bem atendido e orientado a tentar divulgar o meu interesse de trazer esta arte para cidade onde eu morava.
Devo admitir que fiquei um pouco desanimado, depois de diversas tentativas de contato com academias, associações atléticas e na universidade, onde poucas pessoas demonstravam interesse ou então nenhum. Foi quando eu soube da possibilidade da vinda do Senpai Mauro Tanaka para Ribeirão Preto, com a intenção de estabelecer uma unidade aqui. Após o contato com ele tentei novamente divulgar sobre a aula inicial que iria ocorrer no dia 05 de abril, e novamente fiquei desanimado com a falta de interesse de disposição das pessoas. Mas minha percepção mudou no sábado de manhã, dia da primeira aula, eu conheci ótimas pessoas que estão dispostas a aprender e a ensinar. A partir daí as aulas tem sido ótimas, todos os sábados eu me levanto com uma incrível disposição de ir à aula e cruzar espadas com meus colegas que também são pessoas maravilhosas. É também, surpreendente, a incrível vontade e atenção que o Senpai direciona aos ensinamentos e ao companheirismo durante as aulas e fora delas.
Acredito que todos os alunos da unidade Ribeirão Preto, partilhem da mesma opinião que expressei neste relato, e tenho grandes esperanças na formação de uma unidade forte e sólida baseada nos ensinamentos da arte Samurai, onde se possa transmitir estes conhecimentos entre as pessoas com quem convivemos e para as próximas gerações de Samurais
Camillo Del Cistia Andrade,
Coordenador do Niten Ribeirão Preto
Desde criança, sempre gostei da cultura oriental em todos os aspectos. A primeira vez que experimentei sashimi, faz muito tempo, eu lembro de ter dito “Que delícia Tio!! Põe mais pra mim!!”. Os documentários que eu assistia na TV, me deixava louco ver os caras lutando! Quanta agilidade e espírito!! De uma certa forma eu não sabia mas com o tempo eu descobri que as minhas ligações com o mundo oriental, mesmo eu não tendo nenhuma descendência, eram muito fortes. Não era simplesmente admiração, eu tinha vontade de ser como eles; de lutar como os caras dos documentários; comer o que eles comiam. Os anos foram passando e eu fui envelhecendo; tudo o que eu sentia foi se tornando mais profundo. Eu vi que não queria só comer, eu quer saber fazer a comida. Eu não queria só saber empunhar e usar uma espada corretamente, eu queria conhecer todos os processos e técnicas envolvidas na sua manufatura, ou seja, eu queria SABER FAZER uma espada. Um homem só é completo quando domina tudo sobre um assunto e não apenas parte dele. Eu não quero apenas saber usar o instrumento, eu saber faze-lo também, ou pelo menos conhecer os processos, e, na minha opinião, esse é o caminho para o verdadeiro artista.
De tudo que se relacionava ao Japão, o que mais me cativava eram os samurais. Eu tinha uma certa admiração muito singular por eles; queria um dia ser um deles mas imaginava que para isso eu teria de no mínimo, morar no Japão e isso me deixava frustrado. Eu era apenas uma criança de 7 anos nessa época, e com a mentalidade que eu tinha, esse sonho era impossível. E foi impossível até o final de 2001quando eu conheci o Instituto Niten.
O Instituto começou a fazer parte da minha vida no final de 2001 quando entrei no site pela primeira vez. Eu descobri o Niten após uma pesquisa sobre artes marciais que eu usaria para completar um site sobre Dragon Ball que eu estava fazendo, com um pouco sobre cultura oriental. Quando eu inocentemente cliquei no link “Kenjutsu” e li o subtítulo “O Caminho da espada”, eu imediatamente parei tudo o que estava fazendo e mudei completamente o objetivo da pesquisa; eu finalmente tinha achado o que eu tanto procurava: meu sonho de infância. Desde então passei a me dedicar com pesquisas e visitas regulares aos sites da Kendoonline e do Instituto Niten. Apenas uma coisa me frustava: o fato de não ter uma unidade do Instituto aqui em Ribeirão e de não ter coragem de mandar um e-mail perguntando se iam abrir uma. Eu passei o ano de 2002 na expectativa de inaugurar uma unidade aqui e finalmente realizar meu sonho. Fui criar coragem para perguntar em abril de 2003 e, um dia depois que eu mandei o e-mail, eu comprei o Manga “Vagabond” e vi na propaganda que tinha uma unidade em Ribeirão. Na hora fiquei animado e falei “Putz, e não é que tem uma unidade aqui?!?! Como é que eu não sabia? Será que ainda vão abrir?”. Na quinta eu li a resposta do e-mail e eu vi que tinha mesmo inaugurado e que já estava na terceira aula. Na mesma semana, no sábado eu estava lá, feliz da vida e pronto para meu primeiro treino. Eu lembro que quando eu li o e-mail fiz a maior festa, pulei, gritei, comemorei até não ter mais voz. Eu finalmente havia realizado meu sonho de trilhar o caminho da espada.
Ao iniciar no caminho, logo na primeira aula, eu pude sentir muita energia interior e queria colocar tudo para fora, mostrar minha satisfação e gratidão de estar treinando e poder compartilhar minha energia, com a energia de cada um que estava lá. Em menos de um mês de treino pude sentir melhoras significativas na minha vida. Não apenas físicas, mas também senti o espírito crescer; eu me tornei mais extrovertido e muito mais confiante. No começo eu era desajeitado, torto, meu Kiai mais parecia um sussurro comparado com o que é hoje em dia, mas, todos os treinos seguintes eu sentia melhoras; eu sentia que podia confiar em mim e melhorava. Eu confesso que nestes seis meses de treino eu progredi de forma extraordinária. Nem imaginava que tivesse tal capacidade! Eu nem imaginava que um dia conseguiria me apresentar para um público mantendo total controle de minhas emoções e pensamentos, como eu me apresentei no Festival Tanabata. Hoje eu me sinto outra pessoa; muito melhor que antes. Sei que ainda tenho chão pela frente no Caminho da Espada e que tenho muito que progredir, o que me deixa animado. Saber que eu posso se cada dia melhor e estou muito confiante para continuar, para engrandecer meu espírito cada vez mais, e um dia poder passar para frente tudo que eu aprendi, não só para os meus descendentes mas para todos que estiverem tão dispostos quanto eu estou para aprender.
Uma das coisas no Niten que me causou impressão positiva foi o companheirismo e o respeito mútuo. Ninguém quer ser melhor que ninguém; todos se respeitam, e o que é melhor, um sempre tenta ajudar o outro. Eu admiro muito esse espírito de companheirismo, que é muito raro hoje em dia, transmitido por todos e isso, na minha opinião, é algo essencial não só para o treinamento mas para tudo na vida. Quando eu estou no treino eu me sinto como se estivesse na minha própria casa e que todos fizessem parte da minha família e isso pude sentir desde o dia que eu cheguei para treinar pela primeira vez.
Obrigado a todos por lerem meu relato!!! Espero que tenham gostado!
Arigato gozaimashitá e até mais
Gianpaolo Barci,
Aluno do Niten Ribeirão Preto
Niten Ribeirão Preto