
“Era como defender-se de um galho caindo do alto de uma árvore, ou descer de uma escada carregando uma bandeja.”
"É uma arma de Longo Alcance... o Maai está longe do corpo”. Este foi o primeiro pensamento que tive ao ver o Sensei empunhando a Naginata durante o treino. Já havia visto algumas demonstrações de armas de longo alcance antes, mas jamais havia tido a oportunidade de enfrentar nada parecido em combate. Tinha certeza de que aquele seria um momento especial.
Enquanto os dois primeiros colegas se preparavam para combate colocando os protetores na canela, fiquei observando a postura e os movimentos que o Sensei fazia com sua Naginata. Talvez ele estivesse apenas aquecendo-se, mas, aos meus olhos, estava apresentando a arma e suas possibilidades. Observei como o "Men" descia na diagonal, assim como o " Dô" e o golpe contra a canela; ele fazia estocadas com a lâmina e o cabo. Imaginei que a força daquela arma deveria estar em manter o adversário à distância. Porém, como será que ela trabalha quando o adversário consegue se manter próximo? A espada levará vantagem nesta situação ?
Os combates começaram. Fiquei observando atentamente os colegas lutando e a maneira como o Sensei se movia. Tinha ouvido falar há algum tempo atrás de que cortar a canela dos adversários com aquela arma era algo extremamente simples e, de fato, isto não é apenas um boato. Fiquei impressionado pelo modo como uma arma tão grande conseguia mover-se com tamanha delicadeza. Seus movimentos pareciam ser todos lentos e, ainda assim, os adversários tinham grande dificuldade em defender ou esquivar. Estive imaginando como eu enfrentaria a distância e o corte contra a canela.
Assumi o kamae, certo de que a estratégia da Naginata contra um adversário próximo seria tentar abrir distância. Tentei marcar a distância a ser percorrida para alcançar o Sensei e, assim que o combate iniciou, descobri porque é tão simples perder as pernas para esta arma. Graças ao "Efeito Túnel" onde, durante um combate, a visão se estreita como um túnel para compreender apenas o oponente, as áreas de ação da Naginata permaneciam além do meu campo de visão. Era como defender-se de um galho caindo do alto de uma árvore, ou descer de uma escada carregando uma bandeja.
Durante o combate, eu não poderia perder o foco da estratégia que havia escolhido. Tentei várias vezes avançar com velocidade e diminuir a distância de combate. Com muito custo consegui aproximar-me, sendo recebido com um Dô. Descobri que à curta distância, o Sensei empunhava o centro da Naginata, atacando como um bastão, bastando um simples passo meu ou dele para que eu caísse novamente no raio de ação da lâmina.
"É uma arma de Longo Alcance... o Maai está longe do corpo." Nunca estive tão feliz de estar tão errado, pois descobri que a força da Naginata não está apenas em seu alcance, mas também em sua capacidade de adaptação.
Ricardo Leite
Unidade Ana Rosa
Niten São Paulo