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Café com o Sensei

Pensamentos e comentários do Sensei Jorge Kishikawa




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    23-jul-2012

    Shugyo com o Sensei 9 - Conversas com um mestre

    "Gostaria de compartilhar uma parte da grande experiência que foi esse Gashuku.

    Nos Momentos de Ouro do Sensei, foi comentado sobre a conversa que o Sensei teve com um mestre Menkyo Kaiden de um estilo e 5º Dan de Kendo no Japão, onde o Sensei explicava para ele sobre o uso das técnicas do Kenjutsu no combate com Bogu. Confesso que me tirou boa parte do sono à noite este trecho dos Momentos de Ouro.

    É um pouco triste pensar que alguém com tão alta graduação em um estilo, duvide da eficácia do mesmo em um combate real. No dia seguinte, o Sensei confirmou a conclusão que eu cheguei nas minhas reflexões, que ele treina pela tradição. Claro que manter a tradição é importante, mas acredito que Musashi Sensei não tinha a intenção de criar um estilo de Kenjutsu tradicional, antes dessa característica, ele queria um estilo eficaz.

    Musashi Sensei inovou muito no seu tempo, com um estilo diferente do que a maioria era acostumado na época. Um estilo eficaz, e que devido à isso se tornou conhecido, atraiu praticantes, e só depois disso e de alguns séculos, podemos dizer que hoje é um estilo tradicional.

    No Instituto Niten, assim como Musashi Sensei, também inovamos, trazendo para o combate com Bogu as técnicas antigas do Kobudo, algo que ainda não tinha sido realizado por ninguém, japonês ou gaijin. Imagino que isso pode ser tão inusitado que até o mestre japonês que conversou com o Sensei ficou na dúvida se isso era possivel. Imaginei algum Samurai antigo tendo uma conversa assim com Musashi Sensei: "Mas lutar com uma mão? Como assim? não vai funcionar!", "Lutar com as duas espadas ao mesmo tempo? Que loucura?".

    Nos Dojos do Instituto Niten, recebemos um treinamento único, que nem no Japão poderíamos ter acesso. Devemos ter plena consciência disso, valorizar cada segundo dos treinos, e aproveitar ao máximo tudo o que nos é passado. É uma grande responsabilidade para todos os alunos.

    Acredito que se Musashi Sensei soubesse que tantos séculos depois, seus discípulos de um mundo diferente e moderno, ainda estariam treinando buscando a eficácia do estilo, e não apenas a tradição, adaptando o combate com armadura de proteção, mantendo realmente vivo o seu estilo, ele ficaria muito satisfeito.

    Talvez um dia, algum "sensei" japonês, também queira inovar e acabe levando de volta para o Japão o Kenjutsu com Bogu que treinamos aqui. Será uma ótima maneira de nós brasileiros agradecermos por tudo de bom que do Japão nos foi trazido. Devemos treinar firme, para mostrar aos japoneses que apesar de não estar no DNA do brasileiro, o Bushido está e muito, enraizado em nossos corações, pois aprendemos com o Sensei a lutar com o coração e com o espírito, não apenas com o corpo, não apenas com as armas.

    Domo arigatou gozaimashitá Sensei, por ter essa coragem, e eu diria até, a ousadia de inovar utilizando o antigo e tradicional, trazendo para a nós esta "novidade" de mais de 700 anos."

    Ricardo (Unidade Ponta Grossa)




    Vista da caverna de Reigando, local onde foi escrito o Go Rin no Sho por Musashi sensei

     



    Esta conversa aconteceu durante a minha ultima estada no Japão ( CS - 25 de Junho de 2012 - Shugyo com o Sensei 1 - Melhorar o mundo ) em uma conversa bem solta e descontraída.
    Pelo fato de o mestre citado em questão ser um grande amigo de duas décadas, tive a oportunidade de mostrar a ele as descobertas que tenho feito ao longo de meu treinamento. Acredito que a amizade que existe entre nós tenha proporcionado este clima de abertura por parte dele, do contrário, não teríamos chegado a trocar as ideias e muito menos teria eu a chance de fazê-lo compreender sobre a eficácia dos katas antigos durante o combate com bogu.
    Digo "amizade" por que há o risco do elemento "pré conceito" (Cs - 31 de Janeiro de 2008- Amigos sem preconceitos) impor se a frente por parte do ouvinte de kendo, pois as técnicas são limitadas. E aí a conversa não vai pra frente. Acredito que não seria diferente comigo, se pela primeira vez ouvisse algo semelhante.
    A diferença é de termos sido abençoados (ou sermos sortudos) para estar abertos às inúmeras técnicas que seriam possíveis de se desfrutar, experimentar e obviamente, conectarmos ao passado da forma mais realista possível.
    Voltando à conversa no Japão, quando expus a variedade de kamaes e sua eficácia no combate de kenjutsu, percebi que o mesmo se mostrou
    surpreso.
    A seguir, vieram, é claro, dentro de seu conhecimento técnico de 5º dan em kendo, perguntas e dúvidas para testar a eficácia mencionada das técnicas citadas.
    Todas foram sendo esclarecidas. Algumas com seu reconhecimento imediato, outras com um certo ar de desconfiança. Estas geravam por parte dele, contra-argumentos que queriam anular a eficácia das técnicas antigas.
    Mas não tinha como. Estas outras, ao serem mais detalhadas , eram então concluídas com um leve aceno de sua cabeça e acompanhadas sempre da expressão:
    - Naruhodo...
    "Naruhodo", queria dizer ele em português: "Realmente..."
    No final, para a minha alegria, se mostrou muito admirado e mais do que isto: ficou entusiasmado a experimentá-las em um futuro próximo.
    Treinar em busca da tradição é admirável.
    Mas treinar em busca da eficácia desta tradição é mais do que isto. É conectar-se com o que nos permeia desde o nosso passado remoto: a vida e a morte.




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