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Matéria no Niten Butantã

por João Pedro Malar - SP/São Paulo BU - 03-mai-2019


Kenjutsu: a arte samurai

Por João Pedro Malar


Com mais de 600 anos de história, o kenjutsu é uma arte marcial de origem japonesa que ficou conhecida ao redor do mundo por ser a técnica de luta utilizada pelos famosos guerreiros samurais. Em tradução livre, kenjutsu significa “técnica da espada”, e é exatamente com essa arma que os praticantes desse estilo de luta dão continuidade a essa arte marcial antiga e tradicional.




O kenjutsu é uma arte ancestral, praticada pelos famosos samurais japoneses. (Imagem: João Pedro Malar/Jornalismo Junior)

O kenjutsu, entretanto, não ensina apenas o uso da espada, por mais que seja o grande foco dos seus praticantes. Além disso, essa arte marcial possui diversas variações, e muitas das posturas de combate existentes foram reunidas a partir do encontro de diversos estilos desenvolvidos em diversos territórios durante o período feudal, onde hoje é o Japão.


A história

No Brasil, a grande referência no ensino do kenjutsu é o Instituto Niten. Foi fundado em 1993 pelo Sensei Jorge Kishikawa, que já havia conquistado grande fama como um praticante de kendo. Kishikawa viajou pelo Japão para aprender a arte de luta original dos samurais [e continuou viajando por mais de 40 anos, já somando mais de 80 viagens. Nota do Instituto Niten]. Após receber permissão para ensinar a técnica, retornou ao Brasil e fez algumas adaptações ao kenjutsu, desenvolvendo um estilo único.

A técnica ensinada por Kishikawa manteve as inúmeras técnicas e posturas do kenjutsu, mas incluiu, também, a presença da armadura, utilizada, tradicionalmente, apenas no kendo. Com isso, os praticantes do estilo ensinado por Kishikawa conseguiam não apenas realizar as coreografias dos golpes, como ocorre no Japão, mas também empregá-los em lutas reais. Hoje, o Instituto Niten está presente em 15 estados brasileiros e no Distrito Federal, além de oito países, como os Estados Unidos e o Reino Unido.


O treino de kenjutsu é baseado no ensino de técnicas e posturas para a aplicação de golpes. (Imagem: João Pedro Malar/Jornalismo Junior)

Mas qual é a diferença entre o kenjutsu e o kendo? Primeiro, é importante ressaltar que o kenjutsu surgiu antes do kendo. O kenjutsu não é, apenas, uma arte marcial, mas sim uma filosofia de vida [junto com o Bushido. Nota do Instituto Niten] que era seguida pelos samurais japoneses, espalhados por diversos feudos durante o período feudal japonês. Essa divisão deu origem a inúmeras variações com várias técnicas, golpes e posturas. Até hoje, existem inúmeros estilos diferentes no Japão.

O kendo surgiu após a chamada Revolução Meiji, onde o imperador japonês reassumiu o controle do território nipônico e iniciou um processo de repressão dos samurais. O kenjutsu foi abolido e substituído pelo kendo.[Nota do Instituto Niten: Reforma Meiji, quando é quebrada a hegemonia do poder dos Samurais no Japão. O Kenjutsu viria a ser abolido de fato apenas durante a ocupação americana após a segunda guerra mundial e durante a qual o Kendo é autorizado com foco esportivo] O kendo adaptou a técnica de luta com espada, transformando-a em um esporte. Foram introduzidos o uso de armaduras e uma alteração na prática dos estudantes: agora, eles não apenas realizavam as chamadas coreografias de luta (realização individual das posturas e golpes) como também entravam em combate. Além disso, o número de golpes e posturas foram severamente reduzidos, tornando a técnica mais simples.

Mundialmente falando, o kendo é muito mais famoso e praticado. Nesse caso, o Brasil é uma exceção, já que é o kenjutsu, mesmo com adaptações, a técnica de luta com espada mais praticada.


Os elementos

Em relação aos equipamentos, o kenjutsu foca, principalmente, nas espadas. A principal é a shinai, uma espada feita de fibras de bambu que é usada principalmente para o combate em si. Para o treino das posturas e golpes, sem a prática de combate real, é usada o bokuto, uma espada rígida de madeira. Além disso, também é usada a kodachi, uma espada de bambu menor, usada junto com a shinai.


A imagem mostra alguns dos principais equipamentos do kenjutsu. Os componentes do bogu e a shinai, usada nos treinos e competições. (Imagem: Reprodução)

O principal equipamento de proteção é o bogu, uma grande armadura de proteção. O bogu é dividido em kote (a luva), men (o capacete), tare (proteção inferior) e do (proteção da barriga). Além disso, os alunos também utilizam um quimono durante as aulas, colocando a armadura apenas nas simulações de combate.

Um outro diferencial entre o kenjutsu e o kendo é que no último é usada, majoritariamente, apenas uma espada. O kenjutsu possui uma variação maior: pode-se usar uma espada, duas, uma espada grande e uma pequena, etc. Mas também existem outros equipamentos, como a naginata, uma lança bem comprida, e a kusarigama, uma foice amarrada em uma corrente e um peso. O manejo dessas armas também é ensinado no kenjutsu.

No Instituto Niten, referência no ensino atual de kenjutsu, o treinamento é dividido em etapas, onde são ensinadas as mais de 20 posturas e os golpes, que, juntos, geram várias possibilidades em combate. São elas:

0ºKyu– É o equivalente à faixa branca, ou seja, o nível mais baixo que um praticante pode ter. Nele, são ensinados os princípios básicos do kendo, que, por serem mais simples, são mais fáceis de serem absorvidos e servem como introdução às posturas e golpes do kenjutsu.

7ºKyu– Equivalente à faixa azul, nessa etapa o aluno aprende a lutar com duas espadas, a técnica conhecida como Nitô, além de serem ensinadas novas posturas.

6ºKyu– Equivalente à faixa amarela, essa etapa é vista como uma das difíceis do treinamento, onde são ensinadas algumas das posturas mais difíceis do kenjutsu.

5ºKyu– Equivalente à faixa laranja, aqui o aluno deixa de ser considerado um novato e passa a usar um kimono azul, e não mais branco, nos treinos. O aluno passa a conseguir utilizar golpes vindos de cima, dos lados, de baixo e do centro.

4ºKyu– Equivalente à faixa vermelha, nessa etapa o aluno aprende novas técnicas no uso de uma e duas espadas e, inclusive, aprende a lutar utilizando apenas uma espada curta (shotô).

3ºKyu– Equivalente à faixa verde, nessa etapa o aluno aprende outras posturas e técnicas mais avançadas.

2ºKyu– Equivalente à faixa roxa, nessa etapa são ensinadas novas posturas e técnicas.

1ºKyu– Equivalente à faixa marrom, nessa etapa são ensinadas as últimas posturas e técnicas.

1ºDan– Equivalente à faixa preta, nessa etapa o aluno oficialmente deixa de ser um aluno de kenjutsu.

[Nota do Instituto Niten: as descrições das faixas acima são uma simplificação e não correspondem exatamente aos estágios mencionados. Inclusive na faixa preta, não há menção a deixar de ser aluno. A faixa amarela não é mais difícil que as posteriores que seguem. Na faixa azul é apenas introduzido o combate com duas espadas, havendo um longo caminho pela frente ainda para o aprendizado e o seu domínio.]


As competições

O Instituto Niten realiza, anualmente, um campeonato nacional de kenjutsu, que já se encontra na sua 16º edição e é dividido em um torneio individual e de equipes. Além disso, foi realizado em 2018 o primeiro campeonato mundial de kenjutsu, no mesmo ano em que o Instituto Niten completou 25 anos. O torneio contou com a participação de representantes de todos os estados e países que possuem centros de treinamentos do Instituto.


Imagem do primeiro campeonato mundial de kenjutsu, que ocorreu aqui no Brasil. (Imagem: Instituto Niten)

Nas competições ocorrem duelos entre dois lutadores, que são colocados em um círculo. As partes do corpo que são consideradas como alvos pros golpes são cinco: a cabeça, o braço, a parte inferior do braço, a barriga e o pescoço. A execução do golpe, que leva em consideração a postura pré-golpe, a técnica e o golpe realizado, é avaliada no sistema de pontuação. Nos torneios com competidores em níveis mais baixos, um golpe com execução imperfeita vale meio ponto; já nos de níveis mais altos, eles não são considerados, já que, nesses níveis, busca-se a perfeição.

Nesse último caso, o golpe perfeito gera um ponto, chamado de ippon. Em algumas competições, é necessário apenas um ippon para a vitória; em outros, são necessários dois pontos, o chamado nihon me. O sistema de pontuação também leva em consideração as faltas que podem ser cometidas. Elas são de vários tipos: sair do círculo, atrapalhar o bom andamento da luta, realizar golpes não permitidos, usar excesso de força, etc. Duas faltas geram um ippon para o adversário.

Vale ressaltar, porém, que o kenjutsu não tem como objetivo principal ser um esporte. Ele é, primeiro, uma arte marcial, e, acima de tudo, uma filosofia de vida. O objetivo do aprendizado dessa arte é aproximar as pessoas do estilo de vida samurai, baseado na paz de espírito, concentração, determinação e resiliência. Acima de tudo, a prática do kenjutsu garante a perpetuação de uma cultura milenar e histórica, aproximando os humanos do século XXI dos samurais do século XV.

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