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No Japão com o Sensei 3

por Wenzel - Nihon - 24-jan-2020

NO JAPÃO COM O SENSEI 3 - Senpai Wenzel

GOOD MORNING VIETNAM!

(ou “terceiro e último email da triologia de uma viagem ao Japão com o Sensei”)


“Yesss!...”, “...Yesss!”. Japonês falando “sim” em inglês, é diferente. É como se fosse um “Hai!”. Sai lá do HARA (entranhas, região abaixo do umbigo, fonte de energia do corpo, origem do KIAI! ), igual ao “hai”, é curto, firme, acabado com Zanshin. Fico ouvindo e curtindo a disposição do jovem funcionário do balcão do hotel, com seu terno grande demais, atender o estrangeiro: “Yesss!”, “Yesss!”, enquanto o Sensei faz o nosso checkin, em nihongo mesmo, com a senhorita novata atrapalhada. Tudo muito rápido e solícito como sempre, mas vieram quatro tickets pro café da manhã.

O café da manhã no japão é uma festa, tem arroz, peixe, missoshiro, conservas, salada, natô, ovos e baicon (de brinde por causa dos estrangeiros), algas, tofú, dependendo vem pudim de frutos de mar, um sucesso.



Café da Manhã tradicional no Japão


Mas nesse hotel o café da manhã é self service e pode-se repetir à vontade, não tinha necessidade de dois tickets para cada um de nós, já que era uma noite só. Como vieram dois cartões para o quarto para cada um também, chamo a atenção pergunto o motivo, e de fato a senhorita cobrou errado quatro diárias ao invés de só duas. Continuo curtindo, discretamente é claro, agora vendo a gerente se juntar à senhorita e ambas tentando no espaço de tempo mais rápido possível, um pouco encabuladas, o suficiente para arredondar o erro, estornar a transação e refazer corretamente. Os dois ou três minutinhos extras me permitem ver mais alguns checkins, com os “Yess!” para estrangeiros e “Hai!” para japoneses! Maravilha, tudo funciona certinho, tirando o errinho da senhorita, e eu que estou atrapalhando o acesso ao guichê do lado. Ops! Gomen!

Estamos em Hiroshima. Na manhã desse dia estávamos no trem bala, vindo da ilha de Kyushu e entrando em Honshu, a ilha principal por sua ponta mais ocidental. Sensei me contava que uns 20 km ao norte de onde estávamos, na costa com o mar do Japão, próximo à Coréia, é a província de Nagato, lar de Yoshida Shoin. O samurai intelectual que teve papel decisivo na modernização política do Japão na reforma Meiji, segunda metade do século XIX. Pelo que entendi, apesar de não ter tido cargos e posições de poder, é um dos pensadores do Japão moderno, professor e mentor para muitas figuras que depois viriam a fazer acontecer no Japão, inclusive futuros primeiros-ministros. Vou tomando ele como espécie de José Bonifácio do Japão, inclusive ao que parece, tão (des)conhecido quanto pelas respectivas massas.

Foi também em Nagato que Yoshida Shoin ficou recluso em prisão domiciliar, e para onde os progressistas da época peregrinavam, para aprender com ele. Percebo que essa Nagato é longe pra burro dos demais centros políticos e econômicos da época! E nem tinha trem bala! O pessoal vinha de longe mesmo pra aprender com o jovem Sensei à frente de seu tempo!




O trecho do trem bala e Nagato



Falamos mais de Yoshida Shoin. Como ele considerava importante incorporar-se à tripulação do Comodoro Perry, e viajar o mundo para adicionar mais conhecimento sobre o mundo e a modernidade às suas ideias e projetos para a modernização do Japão. Queria colocar o Japão e o mundo em perspectiva. Enfim, falamos mais sobre esses temas que temos passado nos Momentos de Ouro no Niten há alguns poucos meses atrás. O Comodoro Perry, como representante do governo norte-americano, não pôde aceitá-lo e teve de devolvê-lo às autoridades do Shogun. Ainda assim o Comodoro Perry teria tido grande simpatia por ele, e se pudesse escolher, o teria aceito para viajar junto o mundo em seus “navios negros”. O Comodoro, em seus registro de viagem, fala da extrema polidez e refinamento “deste” Yoshida Shoine fala do povo japonês como um todo com profunda admiração, "que povo fantástico, que país fantástico que tem um povo assim!”.



Ilustração de um dos navios negros do Comodoro Perry sendo recepecionado no Japão


Lembro da primeira imagem que eu formei do Japão quando criança. Nessa idade bem pequeno as lembranças se confundem e às vezes nos traem, mas acho que foi quando minha mãe me lia o livro “JIM KNOPF E LUKAS, O CONDUTOR DE LOKOMOTIVA”: A minúscula ilha onde moram Jim e o Lukas vai receber um novo cidadão (provavelmente alguém estava grávida), e o rei explica ao Lukas que infelizmente a ilha não vai mais ter espaço para os trilhos da EMMA, a locomotiva, claro. Lukas, inseparável da Emma, resolve vedar ela, torná-la flutuante e partir em busca de novas terras, e o Jim resolve ir junto, pra cuidar dos dois, assim os três se lançam ao vasto oceano.






Quando Jim (o menino) e Lukas alcançam terra firme, a descrição do autor guia o que seria a primeira imagem que fiz do Japão em minha cabeça: uma terra maravilhosamente bem cuidada, com pessoas extremamente educadas, polidas, delicadas nos sentimentos, muito limpas, as casas muito cuidadas e artesão habilidosos e refinados.

Acho que eu misturei elementos do livro do Jim, com elementos da “História sem Fim”, do mesmo autor também lida na infância, e além disso, revendo agora, o Jim, o Lukas e a Emma chegam na realidade na China, não no Japão. O que é engraçado também, pois na Áustria tem um ditado que diz que “Chineses e Japoneses é tudo a mesma coisa”. O que obviamente é uma besteira tão grande quanto dizer que austríacos e alemães são tudo a mesma coisa, mas do ponto de vista de uma criança de 5 anos, no outro lado do planeta, podemos deixar passar! De toda forma na minha memória eles chegavam no Japão.

E essa imagem do Japão que ficou na memória era mais ou menos isso que o Sensei fala ter sido a impressão do Comodoro Perry sobre o Japão!

Agora, quando venho a conhecer o Japão pessoalmente, o Japão continua impressionando tanto como na narrativa das aventuras infantis.

As pessoas, a educação, a limpeza, o zelo e esmero ao fazer as coisas. É preciso vir ao Japão pessoalmente para entender e sentir de fato a intensidade dessa energia. Só sentindo. E se você já treina, melhor ainda, pois o Niten lhe dá a chave para captar mais a fundo, pegar a respiração, e uma vez fisicamente no Japão, chegar mais rápido de fato, espiritualmente.

Tudo aqui vai lembrando uma história fantástica, ainda por cima embalado pelo véu do "confuso horário". Nas pessoas, nos detalhes, nos costumes… O aproveitamento dos pequenos espaços, mesmo ainda em região urbano com cultivos de arroz e hortas. Às vezes sobras de terreno, triangulares, de não mais que 15m x 15m x 10m, em meio a predinhos de 2 andares, estão cultivados. Tudo tão pensado e aproveitado. As coisas mais frugais, cotidianas, tem seus detalhes especiais. Por exemplo os elevadores nas estações de trem: na maioria das vezes tem duas portas, assim cabe mais gente, funciona e flui melhor, pois entra todo mundo de um lado, e ao sair, já estão todos virados no sentido da saída. (Fica até mais justo, por que o primeiro a entrar é o primeiro a sair. Outra que no Japão o elevador com capacidade de 750 kg vem certificado para até 13 pessoas! Povo leve, tirando o pessoal do sumô, é claro.)

Pode-se argumentar que o elevador de duas portas deve ser bem mais caro que o de uma? "Isso é luxo de país rico." Por outro lado posso imaginar também que teve um engenheiro que calculou que o custo maior compensava depois de tantos anos, porque aumentava o aproveitamento, do espaço, e a plataforma da estação que não tinha espaço mesmo para ser construída maior, ia suportar mais pessoas, etc. Até porque também, o elevador deles é japonês, e não sei se é por isso, ou por que eles o consertam rápido, ou por que o uso disciplinado não o estraga tão rápido, no Japão está sempre tudo funcionando. Lembro da dica do meu mecânico, pra comprar carro japonês: eles quase não quebram. É raro aqui ver uma equipe de manutenção. Está tudo funcionando. Caramba!

E olha que tem mecanismo e detalhe e equipamento em tudo quanto é canto.









Em toda parte os mínimos detalhes estão pensados. Sensei e eu muitas vezes passamos o dia inteiro tendo que levar as malas conosco, para cima e para baixo, literalmente. Na hora de ir pra frente e pra trás sorte que elas têm rodinhas. Na hora de ir pra cima e para baixo, caçávamos as escadas rolantes e muitas vezes a gente foi conhecendo melhor os elevadores! E como estavam sempre todos funcionando muito bem. Já nas horas de se locomover no plano quanto mais pesado a mala mais a gente repara é no chão e seu relacionamento com as rodinhas! Até nisso, aqui tudo é pensado. Tudo liso, sem desníveis, as juntas bem feitas, e quando tem um desnível pequeno, colocou-se uma lona fina de borracha no local, que permite tudo correr redondo bem!

Mas nem na tua casa para os gestos mais diários, os que você repete dia após dia, nem lá você pensa tão bem no funcionamento redondo e sem atritos desses gestos, como no Japão são pensados os gestos e ações, até do espaço público. Principalmente do espaço público: As coisas precisam funcionar! Já basta as tantas vezes que tudo tem que dar uma paradinha por um terremoto ou tufão básico passando pelas ilhas.

Sobre o espaço público a Alana, aluna do Rio que passou um ano no Japão me escreveu também: “Nesse sentido, sair de uma lógica no Brasil em que o bem público é "de todo mundo, então tanto faz (sujá-lo, depredá-lo e etc - vale ressaltar que eu nunca fiz isso)" para um pensamento de que o bem é público " então também é nosso" foi bem legal.” (Foi ótimo ela ter me escrito isso, assim tenho também oportunidade de corrigir a informação do primeiro email de que ela foi fazer doutorado e não mestrado no Japão).

Tem um desses detalhes, desses equipamentos pra tudo funcionar melhor que é especial: a máquina de servir CHOPP! E eu ia até tirar foto, ou melhor, fazer um vídeo dela, com fins didáticos, pra levar pro Brasil. Mas foi justo naqueeeela cerveja depois do dia maluco das “4missões+1missãoextradepoisdanoitesemdormir”, e acabei esquecendo de fazer o vídeo. O brinde com o Sensei ganhou prioridade e depois, bom depois esqueci, devo ter pensado que poderia gravar em outra hora... Mas vou descrever porque isso é realmente importante! É o seguinte: Você encaixa a caneca na máquina e insere a moeda. Até aqui, só adianta se tiver a máquina (e a moeda, que tem que ser de Ienes). Mas agora vem a parte universal e importante: a máquina primeiramente inclina a caneca a uma ângulo de cerca de 50 graus, e começa a despejar chopp na caneca até mais ou menos a metade do volume. Em seguida a máquina continua despejando chopp (o mesmo funciona também para cerveja se ela tiver bastante espuma!), no entanto agora a máquina desrotaciona a caneca para uma inclinação de só mais uns 30 graus, permanece por um segundo neste ângulo, despejando chopp e então continua a rotacionar de volta a caneca até retornar ao prumo vertical, ao mesmo tempo que termina de despejar chopp até uns 85% do volume total da caneca. Aí pára o chopp e de uma segunda mangeuira a máquina ainda completa precisamente os restantes15% da caneca com espuma. Uma maravilha! Fica o alerta a todos os alunos, de que se estivermos servindo cerveja, não há essa possibilidade de alternar para espuma apenas, e o copo deve ser gradativamente desvirado até a vertical em sincronia com o momento em que estiver completamente cheio, haver pelo menos um dedo de espuma sobre a cerveja e a espuma estiver formando uma sutil convexidade para além da borda do copo! Reflita cuidadosamente sobre isso, sem um treinamento constante, será difícil aplicar essa espuma com eficácia, e só com muita dedicação chegará à convexidade perfeita!

O Japão se olharmos com atenção é uma contínua aula de física aplicada ao dia-a-dia. Uma competição para acertar a medida, a distância, a temperatura, a aceleração e o volume perfeitos.

Como posso fazer isso funcionar um pouquinho melhor ainda?!




Sensei e Wenzel, disfarçados de Blues Brothers no Japão.


Quando comecei a viajar com o Sensei, e eventualmente pousávamos no mesmo quarto, orientado a primeira vez pelo Sensei logo aprendi a sempre tirar o frigobar da tomada, para não ter aquele zunido do compressor no meio da escuridão na hora de dormir, por mais baixinho que fosse. Comigo foi contagioso, eu hoje em dia, em casa, instalo timer na geladeira para ela desligar todo dia automaticamente na hora do descanso à noite, quando a cidade se silencia e também anseio por um final de dia em profunda paz e silêncio. Chego a tirar a pilha do relógio, para silenciar aquele tic tac do mecanismo de quartzo ou coloco o relógio com ponteiro de segundos que gira de forma contínua sobre travesseiros, porque mesmo esses fazem um zrzrzrzrzrz quando pendurados na parede! Foi só no terceiro ou quarto hotel que eu descobri que aqui já está tudo previsto. Tinha um botão embutido na mobília do quarto para desligar o frigobar. Tive uma certa sensação de ser compreendido (sim, porque você certamente achou que a história do travesseiro já era demais).





É tão óbvio ter esse botãozinho que imagino ser algo até já espalhado pelo mundo. Não sei, mas para mim foi aquela surpresa. Mitsuketá! (Eureka)

Tem os outros detalhes já manjados dos vasos sanitários super bacanas, super tecnológicos e confortáveis, mas que no final das contas, quando bem cuidados devem economizar mesmo um monte de água e papel higiênico.

Haveria um monte de fotos a serem tiradas de coisas pitorescas, diferentes, inusitadas, engraçadas e engraçadinhas. Mas não quero dar spoilers!

O Japão é danado quando se trata em pensar nos detalhes!

Vou curtindo esse estímulo à sensibilidade, esse estímulo a reparar no detalhe, no detalhe dos gestos e dos sentidos. É bom para nos inspirar na construção de um entorno com atenção ao sutil e ao outro.

O Japão está repleto de coisas que inspiram, estimulam, mas tem seus lados B também, é claro. Com não vivo aqui, estou de passagem rápida, elas não chegam com a intensidade do cotidiano. O que vejo e não curto é o restaurante de carne de baleia. Sensei: ostra, ouriço, moréia, arraia, natô (soja fermentada com baba de alien), quiabo (com ou sem baba também), até doce de feijão: estou dentro em todas, e com prazer, mas baleia, onegaishimassu, tô fora, e não é pelo gosto nem textura.

Teve também um atendimento ruim no restaurante de okonomiaki em Hiroshima. A moça do hotel, aquela que ia cobrar o dobro de diárias, garantiu ser o melhor okonomiaki da estação (de trem). O atendimento tava fraquinho, ruinzinho! Nada justifica! É justamente esse o espírito do verdadeiro bom atendimento: nada justifica ele ser ruim. Nao tem essa de “mas aí já é demais”, dia ruim, freguês ruim, dor de cabeça... O incrível é justamente escapar dessas pegadinhas todas. Sempre ser bom. Esta é a maestria. Ser mestre sobre si mesmo. Claro que a perfeição é utópica e inatingível, a questão é onde você coloca seu limite, seu objetivo?! Quando você joga a toalha?! Por isso que é bom viajar, conhecer outras culturas, conhecer pessoas diferentes ou ter mestres cascudos: para elevar as expectativas e as cobranças que você estipula para si mesmo. Mas para dar o contexto, já era tarde quando chegamos (porém o tal de okonomiaki ainda estava aberto e teve gente chegando depois também), e o local tinha um sistema de pagar antes numa máquina e pegar o tícket, e não estávamos familiarizados, aí deve ter sido demais para atendente... O okonomiaki estava bom e a máquina do chopp acertou a quantidade de espuma com inabalável perfeição.



Okonomiaki em Hiroshima.


Outro contexto talvez fosse que estávamos em Hiroshima. Foi a região onde proporcionalmente achei que tinha mais turista estrangeiro no Japão. Esse ponto chamou a atenção. Tentei me colocar no lugar deles. Paris tem muito turista porque sendo subjetivo é realmente espetacular, esplendorosa. Os parisienses me desculpem, mas fica difícil não ter muito turista com uma cidade daquelas, e não é nem obra da natureza, é obra deles mesmos (ou deles e muitos imigrantes), então coitados, precisam mesmo aguentar muito turista, sempre. Mas Hiroshima, tem uma certa parcela de turistas por um motivo bem mais sombrio. O museu mais visitado lá, não é de arte. E quando você pensa em Hiroshima, a primeira coisa que lhe vem à cabeça não é “luz”, ou pelo menos não uma boa. Não sei se esse passado tem a ver com o atendimento mais despachado em Hiroshima, foi uma leitura que não consegui evitar, mas somado a isso percebe-se que para o japonês em geral é muito difícil lidar com o estrangeiro. Enquanto que os japoneses mesmo já sabem como a banda toca, os estrangeiros além de não saberem os costumes locais, ainda chamam a atenção enormemente com frequentes atitudes rudes e sem tato para com os demais, sem atenção para com as regras, e por aí vai. Normalmente o japonês dá um desconto enorme aos estrangeiros, os trata como café com leite, até curte e gosta, mas se for sempre e todo dia algumas cordas vão arrebentar.

Alana também comenta sobre isso no email que ela me envia: “Sair da ideia do "jeitinho brasileiro" para o "jeito japonês" (cortar, fazer as coisas certas, perder o ônibus se chegar atrasado) é uma lição. É uma lição porque é pensar no outro acima de você e não só no outro, mas em todos.”

No Brasil são sempre 1001 exceções que cada um pede para si, e a energia enorme que gastamos para lidar com cada uma delas, individualmente. A gente acaba nunca conseguindo decolar, ou chegar em altitude e velocidade de cruzeiro, por que as 1001 exceções são 1001 âncoras que nos puxam para baixo. No Japão não tem isso, exceto os estrangeiros que ficam pedindo as suas exceções.

São coisas radicalmente incongruentes com o Japão:
- passar técnicas antes da hora.
- não arcar e honrar com o combinado e fingir que nada está acontecendo.

- protelar e adiar eternamente para entregar o necessário atestado médico.

E eticétera.
Imagino a Midori, que trabalha na ADM do Niten, e que cresceu no Japão, o que ela sente no fundo vendo as exceções. Mesmo quando não diz nada, vejo no olhar dela a ciência de que “não é o certo assim”.

Alana: “No Japão eu entendi mais sobre mim e de onde vem a força e a vontade de não querer perturbar, estar sempre disposta a ajudar, entender que cada um tem seus problemas e que você precisa enfrentar sem gerar desconforto aos outros, enfim: pensar no outro. Essas questões me fizeram crescer bastante como pessoa.”


“Ao contrário de ficar mais nervosa com tudo isso, eu me "acostumei" e não levou muito tempo, por isso acho que o treino também me ajudou a aprender mais rápido sobre os costumes e o modo de agir no Japão. Isso me fez muito mais tranquila, um sentimento de estar em casa.”



De manhã, após mais um cooper, esperando o sinal abrir para atravessar a avenida deserta.


Como há essa enorme diferença dos costumes, e acima disso, da maneira de pensar e conviver com o outro, também nos percebemos mais intensamente a nós mesmos.
Com as palavras, as reverências, as licenças, as desculpas, os porfavores, os obrigados, mesmo que já tenhamos boa parte deles incorporados em anos de vivência no Dojo, a aplicação e a situação no Japão são diferentes e é um exercício intenso não cair no automático ao interagir com as pessoas no Japão.

Ao mesmo tempo que é uma viagem para outro planeta, todas as viagens para muito longe, são uma viagem para conhecer a si mesmo, como no “7 anos no Tibet”. Descobrir onde está a sinceridade dos gestos e das palavras. O que elas dizem de fato. Qual a intenção. Qual o seu domínio dos próprios gestos? Até cozinhar sozinho em casa, percebendo os acertos e erros de cada gesto, os deslizes de cada atolação e automatismo ignorante do aqui/agora volta a ser amplificadamente praticar o Caminho, coisa que nunca deveria deixar de ser. Praticar no grão de arroz que cai fora da panela, pratica no pedacinho de cebola que se perde.

No final das contas se o “Arigato Gozaimashita” do outro é só katá sem sentimento ou algo sincero não importa. Importa se o seu próprio katá tem sentimento verdadeiro, isso sim, e isso exige domínio e presença no aqui e agora.

Encontro anotado em meu caderninho: “O japonês é coletivo, no entanto não olha para o outro, não tem muito eye-contact (sem contato visual). É coletivo, mas parece que olha mais para si, para dentro.” E no final das contas, o ponto mais importante, o ensinamento e objetivo final dos mestres da tradição japonesa, costuma ser sempre encaminhar o discípulo para que este dê ênfase e valorize mais que tudo o coração/sentimento/espírito, o SHIN, KOKORO.



Tenugui com o Kanji KOKORO (também lido como SHIN) grande à direita.


Em resposta à pergunta que o Sensei me lançou ainda no Brasil antes da partida, qual mudança eu veria entre o Japão de hoje e o de 15 anos atrás, encontro anotado na caderneta: “Não me escandalizo com nenhuma mudança. Me escandalizo e me maravilho com a energia para trabalhar, procurar melhorar, fazer bem feito, rápido, eficiente, melhor e seguir o procedimento. Só assim pra tudo funcionar…!
Tem muito trabalho sustentando a perfeição aqui.”
Tenho que corrigir o “pra tudo funcionar” para “pra tanta coisa funcionar”. Tudo é claro que não funciona.

Lembro do Brasil e dessa terrível tragédia e desgraça que pesa que foi a escravidão em nossa terra, sobre nossas pessoas. Além da tragédia individual para cada ser humano, foi uma tragédia para a mentalidade: Qual o motivo que se tem para fazer mais e melhor e mais rápido, se você está subjugado em escravidão?!

Lembro da música dos Devotos, banda punk-hardcore pernambucana: “Eu tenho pressa de vencer!”

A mente estimulada questiona e desafia a si mesma: E para que tanta pressa? tanto esforço? Não precisa de tanto assim… aí já é demais! Querer que Brasil vire Japão?!

No diálogo interno respondo novamente: Claro que não, toda a identidade e diferença do Brasil é maravilhosa, mas não seria uma verdade inconveniente o fato de que precisamos de eficiência, evolução, cuidado, melhoria e pressa sim!? Com alguma urgência?!






Estamos voltando pro Brasil. Desta vez saindo do aeroporto de Narita, o maior de Tóquio e do Japão. Pedimos um último chopp, linguicinhas e batata fritas num determinado local porque lá tinha tomadas bem visíveis no balcão e recarregar o celular era a prioridade. A moça tira os chopps, com a quantidade perfeita de espuma, mas esqueceu de repassar o pedido das linguiças e batatinhas. Ops! Pedem desculpas e logo os petiscos chegam também! E que batatas fritas! Estão perfeitas! Não tirei foto, nem ia adiantar para retratar todas as dimensões daquela batatinha. Além do tamanho, a consistência, crocância, textura interna, sal, delicado tempero extra, estava tudo perfeito também. Só experimentando pra entender. Fechou bem!

Umas tantas 30 horas mais tarde.. Chegamos no aeroporto de Guarulhos em São Paulo. São 6h10 da manhã. Tiro a foto do sol nascendo e é inevitável a legenda que me vem à cabeça....





…”Good Moooorning Vietnaaaam!!!” … Estamos de volta ao Brasil, aqui reina a greve dos caminhoneiros. Todos aprendendo a dar valor a cada gota de gasolina e a cada pé de alface.

Que maravilhoso portal!

No supermercado pequeno que frequento, a impressão é de que a solidariedade emerge. Onde antes parecia que cada um só olhava pro seu umbigo, as pessoas parecem parar da correria e se perceberem.

Dizem que os mineiros são solidários só no câncer. Maldade talvez, mas acho que a desgraça é o combustível da solidariedade sim.

Desta vez ao chegar não tenho o “choque anafilático” do qual falava nas outras vezes que retornei do Japão. Recomendava pro pessoal levar um antihistamínico na bagagem de mão, para quando voltar e enfrentar a baderna já no aeroporto, já na esteira da bagagem, escapar de uma crise. Maldade também.

Não, estou mais escolado agora. Estou mais consciente das armadilhas que são resmungar e reclamar, "não achar que aí já é demais". Tudo um portal. Vamos lá! Agora é fazer, é correr!

Minha esposa está participando da organização de um evento promovido por norte-americanos no Rio de Janeiro. Entre outras novidades ela me envia:

“Hj teve jantar de comemoração. Os americanos estão muito encantados com os brasileiros!”

Que sucesso.

Se estão encantados imagino que encontraram disciplina e festa! Isso sempre encanta! Isso que encanta!

Em se tratando de Cariocas, imagino que muita festa!

Sim, a festa é boa aqui!

E ainda assim, vamos pra frente também!



Japão/São Paulo, maio-2018




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