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O Zen

Revista Niponica - 2011 - 03 Espressando o Espírito Zen


Apresentamos a tradução da Revista Niponica, produzida pelo ministério de relações Internacionais do Japão. (www.mofa.go.jp)


Muitos aspectos da cultura japonesa vem sido
influenciadas pelo Zen, inclusive atualmente.

Estas páginas exploram algumas das várias expressões do Zen,
numa tentativa de entender este espírito essencial ao desenvolvimento das artes marciais japonesas.






Índice


  • A história do Zen

  • Disciplinando a Mente e o Corpo

  • Tudo se transforma em Um: O Zen e as Artes Marciais

  • Deliciosa Cozinha Vegetariana inspirada pelo Budismo

  • Uma Jornada pelo Zen








  • A história do Zen

    O Zen originou-se na Índia como uma disciplina budista e foi trazido para a China por um sábio chamado Bodhidharma. Após um período de desenvolvimento, o Zen chegou ao Japão* por volta do final do século XII e evoluiu além do sistema de crenças do Budismo, para influenciar a maneira apensar das pessoas, seu comportamento e inclusive sua estética. Em outras palavras, o Zen deu expressão às varias formas da vida cultural. Mas o que é Zen? Genyu Sokyu, um monge Zen e autor, oferece algumas respostas.
    * Hoje em dia há três escolas Zen no Japão: Rinzai-shu, Soto-shu e Obaku-shu

    Comentários por Genyu Sokyu



    Rigoroso porém tranquilo: duas abordagens aparentemente contraditórias

    Quando ouve-se a palavra “Zen” o que vem à sua mente? A maioria das pessoas provavelmente pensa nele como algo que requer ascetismo e austeridade, e a partir daí eles deduzem que o Zen é sobre rígidas restrições à vida. Enquanto é verdade que o Zen tenha estas características, há outro lado também - um que é na realidade muito dinâmico e livre.
    O Zen desenvolveu-se na China em duas seitas distintas antes de chegar ao Japão. A Escola do Norte (Hokushuzen) enfatizava a doutrina e o ascetismo, enquanto a Escola do Sul (Nanshuzen) enfatizava uma crença descontraída em si mesma sobre a doutrina. Enquanto a segunda abordagem foi adotada inicialmente no Japão, ambas escolas de pensamento foram eventualmente incorporadas com o passar do tempo.
    Portanto, o Zen no Japão enfatiza práticas ascéticas e a doutrina enquanto também adota o espírito-livre como perspectiva. Sua forma singular desenvolveu-se destas duas abordagens aparentemente contraditórias.

     

    Aceitando a diversidade

    Na raiz destas duas vertentes encontra-se o conceito de “dois caminhos” (ryoko). Este conceito, como originalmente desenvolvido no clássico Taoista Chinês Zhuangzi, sugere que ao invés de enxergarmos somente em termos absolutos, é mais eficaz considerar o oposto também, colocando um em relação ao outro. Esta maneira de pensar tornou-se inclusive mais popular depois de sua introdução no Japão.

    Originando-se muito antes da chegada do Budismo, os japoneses consagraram uma miríade de divindades, para as quais eram dirigidas orações em diferentes tempos e ocasiões. A tradição criou uma atitude aberta em relação a diversos valores -mesmo quando aparentemente contraditórios - e o mais apropiado seria simplesmente adotado, dependendo da situação. Então os japoneses não achavam estranho adotar ambas vertentes do Zen.


    Esta tendência de aceitar a diversidade é claramente vista nos Sete Deuses da Sorte, frequentemente expostos nas pinturas Zen, que ficam próximos aos corações dos japoneses até os dias de hoje. Estes sete deuses vieram da inspiração de um monge da escola japonesa Rinzai. Eles foram selecionados de deuses na Índia, China e Japão; cada deus tem uma forma diferente e ajudam as pessoas de diferentes maneiras, mas todos eles trazem felicidade. O jovial Hotei, conhecido como “O Buda Sorridente”, representa todos eles. Sua risada parece dizer, “Você é diferente de mim, mas você é muito engraçado também!” Isto também implica que não há algo como uma verdade absoluta.


    Uma natureza originalmente integrada

    Porque o Zen não se interessa por uma verdade absoluta? A resposta encontra-se em sua crença de que todo ser humano é dotado de com uma natureza original cuja é integrada em seu nascimento. Não requer a busca por algo externo. E como os humanos nascem com uma budeidade inata (o potencial de se tornar um Buda, “um despertado”), eles deveriam tentar encontrá-la dentro de si mesmos, ao invés de externamente a si.
    Se você está em ligação com sua verdadeira natureza, sua budeidade está prontamente aparente e seu espírito estará em sua forma mais pura. No entanto, enquanto nossa verdadeira natureza estiver presa dentro de um ego moldado por conhecimento e experiencia, é difícil reconhecê-la. Para extrair e descobrir nossa natureza fundamental, nós devemos nos empenhar em remover os invólucros sobrejacentes do ego.
    O Zen exerce uma forte influência na cerimônia do chá. Quando aproximando-se a uma casa de chá, os convidados passam pelo jardim, chamado de roji, que literalmente significa “uma área vazia” (que certamente não é vazia). É esperado que eles abandonem coisas supérfluas de sua existência social, para que sua mente e a alma sejam esvaziadas para que possam ficar puras. Somente então eles estão prontos para entrar na casa de chá. Aqui também há uma expressão do conceito de que nossa natureza inata é mais bela do que o ego desenvolvido após o nascimento.



    Clareza após o desprendimento

    No Zen nós tentamos desenraizar o ego e neutralizar o conhecimento e experiência através da repetição da mesma ação. A escola Zen de Soto enfatiza a importancia do zazen, ou meditação sentada e em outras atividades que levam ao comportamento similar ao de Buda. Em adição à disciplina física, a escola Rinzai também usa os enigmas koan - uma sessão de perguntas e respostas para auxiliar na aprendizagem do pensamento budista.
    “Amarre uma corda ao redor do Monte Fuji e traga-o aqui” é um exemplo dos enigmáticos e esotéricos koan apresentados. É esperado que você o considere atentamente e que ofereça sua interpretação ao professor, porém é difícil chegar a qualquer resposta correta. Você deve continuar a refletir sobre ele, concentrando toda a sua mente na tarefa, para que no fim sua auto-consciência desapareça. Somente aí a questão de primária importancia ficará clara. Este é um estado conhecido no budismo como sanmai (profunda concentração espiritual). O sujeito e o koan se unem, e o koan se torna o sujeito.
    O budismo japonês ensina a obtenção do desprendimento pela remoção da auto-consciência através da concentração espiritual. Uma técnica para isso é a repetição de um kata (forma) justamente como aqueles utilizados em cerimônias do chá, arranjos de flores, kendo, e em outras artes marciais e dramáticas japonesas. Em sua essência, todas elas nos mantém praticando uma ação de uma certa maneira, repetidamente, para que no final entremos em contato com nossa verdadeira natureza.





    Poderia o grasnar de um corvo levar à iluminação?

    Diz-se que o mestre Zen Ikkyu Sojun (1394-1481) alcançou a iluminação (satori) depois de ouvir o grasnar de um corvo. O que podemos aprender com isto? Geralmente, se alguém ouve um grasnar, a reação é: “Há um corvo ali.” Mas é diferente para uma criança que ouve um corvo grasnando pela primeira vez, ou para uma pessoa que nunca viveu em um lugar que tenha corvos. Eles não seriam capazes de fazer tal associação imediatamente.
    Nós distinguimos o grasnar de um corvo associando todos os momentos imensuráveis que constituem o auto-sentido. Mas entre o tempo em que ouvimos um grasnar e o tempo que sabemos que é um corvo, há ainda um momento em que a associação ainda não foi feita. Aquele exato momento é um momento de desprendimento, cujo crê o Zen que pode ser vivênciado. Quando vivenciando tal passageiro “aqui e agora”, um momento que é completamente desconectado do passado e do futuro, somos capazes de entrar em contato com nosso verdadeiro eu. Isto é satori.





    Criatividade do instinto

    Se um estado sem auto-consciência e senso de “aqui e agora” é aprendido atravé da disciplina, a intuição pode ser afiada para responder a qualquer situção que surgir. No antigo Japão, o samurai e o Zen tendiam a andar bem juntos, provavelmente porque o samurai dava grande importância ao instinto. Em um duelo, o samurai mais habilidoso era o que não realizava o primeiro movimento - mas assim que seu oponente se moveu, ele já estava pronto para reagir instantaneamente e derrotá-lo. Se você tentar prever as ações de seu oponente e sua predição acaba por ser errada, o seu risco aumenta drasticamente. A maior força encontra-se em não fazer suposições e mantendo-se desprendido.
    As pessoas tem a tendência de olhar para o futuro: “Se eu fizer isso o resultado vai ser aquilo”. Mas o Zen sugere uma maneira diferente de pensar: Não importa qual seja a situação na qual nos encontramos, é melhor continuar redescobrindo o nosso verdadeiro eu, um novo eu para a presente situação. Este meio de intuição é parte essencial da criatividade. Talvez seja por isso que no Japão, o Zen fomentou o desenvolvimento de várias formas de cultura.







    Disciplinando a Mente
    e o Corpo


    Jovens monges em templos Zen são submetidos a um rigoroso treinamento para disciplinar a mente e a alma. Uma parte crucial de sua vida diária envolve seguir certos formatos. Este este artigo leva você a um olhar em suas vidas no Templo Eiheiji, o quartel general da escola Soto de Zen budismo.


    Texto de Abe Takashi - Fotos de Ito Chiharu

    No fundo de um vale montanhoso na remota área a leste da Prefeitura de Fukui, uma coleção de mais de 70 edificações de tamanhos variados ficam em um lote de terreno de aproximadamente 330,000 metros quadrados. Este é Eiheiji, um templo fundado pelo mestre Zen Dogen (1200-1253) que mais tarde tornou-se o quartel general da escola Zen de Soto. Aqui, um rigoroso treinamento para se tornar um monge é empreendido por mais de 200 pessoas.




    Meditação Zazen: o coração da disciplina Zen

    Contrário ao que alguns podem imaginar, o treinamento em Eiheiji não consiste em sentar-se debaixo de uma esmagadora queda d’água, ou jejuar por longos períodos. Não aparenta ser muito diferente

    da vida cotidiana, exceto pelo fato de que cada ação segue um rigoroso formato. Ao concentrar-se completamente em alcançar a forma estipulada, constitui-se a disciplina. No coração de cada treinamento encontra-se a meditação zazen.
    “Buda alcançou o satori, um estado de iluminação, enquanto estava meditando,” explica Nishida Masanori, um versado monge e instrutor mestre no templo. “Após alcançar o satori, ele continuou a meditar. Não desejando nada, simplesmente meditando - zazen é fundir nosso corpo neste aspecto de Buda.”
    Para a prática apropriada do zazen, as costas permanecem retas a fim de manter uma postura ereta. Senta-se com as pernas cruzadas em uma almofada circular, fazendo-se uma formação de triângulo com os joelhos e o cóccix. A postura é ajustada para que o centro de gravidade seja vertical - esta é a posição mais que deve-se manter. As orelhas são diretamente posicionadas acima dos ombros, o nariz diretamente acima do umbigo. A língua deve tocar o palato, enquanto os lábios e boca permanecem fechados. Olha-se fixamente para o chão à frente, em um ângulo de aproximadamente 45º da horizontal e respira-se pelo nariz, expelindo as primeiras respirações forçadamente enquanto adota-se a posição. A postura é reafirmada oscilando-se para a esquerda e direita em um grau decrescente, enquanto o equilíbrio vertical é alcançado.
    Durante o zazen, o objetivo é não pensar em nada, o que não é nada fácil, pois pensamentos aleatórios tendem a ser difíceis de dispersar. “Se você se distrair, concentre sua atenção em cada respiração; para dentro, para fora, para dentro, para fora,” aconselha Nishida. “Concentre-se somente naquilo. Então você não será levado para lá e para cá, e você irá sossegar.”


    Cada ação durante o dia faz parte da disciplina

    O dia começa às 3:30 da manhã (4:30 durante os meses mais frios do inverno), e termina às 21h. A programação é fixada praticamente de minuto a minuto. Maneiras e práticas foram estabelecidas em como se levantar da cama, lavar, meditar, entoar sutras, comer, tomar banho e dormir. Elas foram mantidas por mais de 750 anos, e hoje em dia são rigorosamente seguidas pelos monges. Cada ação do dia é parte da disciplina de treinamento.





    Dogen enfatizou particularmente a importancia do comportamento durante a refeição. No templo da escola Soto, os monges se reúnem para refeição e meditação no mesmo lugar, no salão sodo. Como comer e meditar são ambas partes da mesma disciplina, segue-se sem que nenhuma palavra seja dita durante as refeições. Similarmente, a roupagem usada é a vestimenta formal de um monge em treinamento, a tunica kesa.
    O silêncio no salão é interrompido somente por um gongo que é tocado significando o início da refeição. Convenções explícitas governam cada aspecto: como um guardanapo de pano é posto sobre os joelhos; aonde deixar a colher e o hashi; a maneira de receber a comida, segurar a tigela e comer; após, como lavar os utensílios com água quente, secá-los com um pano de prato, pô-los juntos e envolvê-los com um pano. Muitas convenções guiam os monges durante as refeições - até juntar as palmas das mãos em agradecimento ao final - que tudo isso aparenta opressividade. Será que há tempo para saborear a comida?
    E ainda, estes monges são tão eficientes e ágeis em seus movimentos, que não há como não se impressionar. Suas ações diárias demonstram um desprendimento que detém uma beleza natural.







    Tudo se transforma em um:
    O Zen e as artes marciais





    O Zen e as artes marciais japonesas tem na verdade uma conexão muito próxima. Podemos ver isso claramente em um tipo tradicional de arte da espada que começou vários séculos atrás e são praticadas até os dias de hoje.


    Texto por Takashi Hidemine - Fotos de Iida Yasukuni


    De todas as artes marciais ensinadas no Japão, a que se diz ser mais fortemente influenciada pelo Zen é o kenjutsu (arte da espada). Mas como este tipo de arte e o zen podem estar relacionados? Estas páginas te levarão a um ginásio em Nagoya para mostrar um ramo do kenjutsu, Yagyu Shinkage-ryu, em ação. Este vem sido praticado desde o século XVI.
    O clima no ginásio é frio e a atmosfera é tensa. Uma voz soa uma ordem e o treino começa.
    Se este fosse um treino de kendô você ouviria as espadas shinnai de bambu batendo umas nas outras, pés estapeando o chão, combatentes gritando. Mas aqui é quase silencioso. Pares de alunos estocam-se e defendem-se, mas o combate é como uma dança, quieta porém indescritivelmente tensa.
    “Ao se golpearem, é como se chegassen a um ponto aonde a vida está em um lado e a morte está no outro. O objetivo é manter-se calmo, como se nada fora do comum estivesse acontecendo. O objetivo de nosso treino é de acalmar a mente preocupada, mais do que dominar alguma técnica,” diz Yagyu Koichi, o 22º mestre desta escola de arta da espada.
    Eles estão em uma fronteira simulada entre a vida e a morte. Enfrentando um ao outro, eles portam “espadas” fukuro shinai (varas de bambu divididas e envoltas em couro) em posição. Nenhum equipamento de proteção é utilizado, então qualquer movimento subestimado ou subjulgado pode resultar em ferimento. Eles estão tentando se manter focados e calmos em uma atmosfera altamente carregada.
    O Japão foi despedaçado pela guerra civil por mais de 100 anos, começando no século XV. Durante este pedíodo várias artes marciais foram sistematizadas e muitas escolas de disciplina marcial foram desenvolvidas. Porém no início do século XVI, o Shogun Tokugawa Ieyasu unificou o Japão e trouxe paz ao país, pondo um fim ao bujutsu (artes de combate) como uma maneira de se preparar para o campo de batalha. Os samurais foram transformados em burocratas e passaram a administrar assuntos dos governos do Shogunato e de domínios feudais locais.
    Mesmo assim, os samurais tinham que estar preparados para a guerra se ela estourasse novamente. Então, enquanto mantinham seu papel como uma maneira de afiar suas habilidades de combate, o bujutsu também expandiu-se em várias artes marciais usadas para disciplinar a mente, mantendo-a sempre atenta para a possibilidade de um combate. Os samurais reuniam-se para praticar nos salões de treinamentos dos dojos de várias escolas. Os especialistas da escola Yagyu Shinkage-ryu ensinavam a arte da espada ao Shogun e aos senhores feudais do daimyo.



    O fundador da escola de arte da espada Yagyu Shinkage-ryu, Kamiizumi Ise-no-kami Nobutsuna desenvolveu um número de kata (movimentos estilísticos padronizados) que são ensinados até os dias de hoje. Um dos katas mais comum é o itto ryu dan - a espada de bambu é levada abaixo em um corte arrebatador de cima da cabeça. Este katas requer que evitemos maneiras convencionais de pensar que nós errôneamente achamos serem de senso comum. Isto vem de um ensinamento Zen que diz que nós não devemos pensar em algo como existente ou não existente. Se estamos desprendidos e não fazemos suposições, podemos nos tornar flexíveis o bastante para nos adaptar a qualquer situação. Durante uma partida competitiva, esta crença é transformada inteiramente em estado de espírito.
    “Durante o treinamento, nosso objetivo é treinar a nós mesmos para que o nosso torso, membros e espada hajam como uma única unidade. E então, nossa mente e espírito se tornam parte desta forma também. Isto é o que chamamos unidade de mente e corpo (shinshin ichinyo)”
    Tudo se transforma em um. Com o treinamento, a mente e o corpo parecem se tornar parte da espada. Quando isto acontece, torna-se capaz de fechar suas defesas, sem a chance de ser atingido por outra espada. Então a pessoa com aquela outra espada não é realmente um oponente. Kenjutsu sem um inimigo.
    “Nós não pensamos na outra pessoa como sendo o inimigo. Se pensarmos nele como um inimigo ou oponente, seriamos imersos em um estado de espírito, relacionando-se com ele como amigo ou adversário.”
    Seguindo os ensinamentos Zen, a idéia de inimigo se torna somente um truque de uma mente que quer categorizar as coisas. Pode-se aprender a eliminar este pensamento. Na análise final, a outra pessoa com a espada é parte de nossa própria mentalidade.







    Deliciosa Cozinha Vegetariana
    inspirada pelo Budismo

    Texto Abe Takashi - Fotos Ito Chiharu

    Grãos, vegetais, frutas, algas, brotos... Somente ingredientes vegetais são utilizados na cozinha Shojin Ryori. Ryori significa cozinhar e shojin esforçar-se para seguir as praticas budistas baseada no ensinamento de que devemos evitar comer carne enquanto trabalhamos para purificar o corpo e o espírito.
    O Shojin ryori veio da China para o Japão no século XIII junto com o Zen Budismo, e tornou-se parte da vida monasterial. Na escola Soto de Budismo, fundada pelo mestre zen Dogen, a comida é considerada como uma importante parte do treinamento budista - cozinhar e comer são disciplinas por si só.
    O Chefe de cozinha (tenzo) de um Templo Zen, é encarregado de tudo relacionado à comida no templo. Dogen dava grande importância ao papel de um monge tenzo. Este é um conselho para um tenzo: “Na cozinha, use ingredientes próprios da estação, e mantenha as refeições variadas. Assegure-se de que os monges em treinamento sintam-se bem com suas refeições - isto irá ajudá-los a sentir conforto e tranquilidade no corpo e na mente.”
    Em um templo Zen, todas as refeições diárias preparadas por monges em treinamento são simples, consistindo de uma sopa e um prato (ichiju issai), mais o arroz. Por outro lado, shojin ryori, originalmente preparado para samurais e aristocratas que visitavam um templo, era muito mais sofisticada. É até os dias de hoje servida em alguns templos e restaurantes especializados.
    Em Kasuisai, um Templo Zen em Fukuroi na Prefeitura de Shizuoka, o tenzo segura um grande recipiente feito de barro, enquanto mói grãos de gergelim. Seu nome é Koganeyama Taigen, e ele tem vários anos de experiência como tenzo instruindo monges estagiários.
    Sementes de gergelim são uma importante fonte de proteína no shojin ryori, que não utiliza nenhum tipo de carne ou frutos-do-mar, nem para a preparação de caldos. As sementes são moídas formando uma pasta suave. Quando um amido é adicionado, a pasta engrossa e torna-se gomadofu, um dos melhores pratos conhecidos do shojin ryori. Preparar o goma-dofu a partir do zero de maneira tradicional leva duas ou três horas, somente para fazer a pasta e deixá-la suave para quando o amido é adicionado.
    “Moer as sementes, concentrando-se o tempo todo somente nisso - até mesmo isso é uma forma ascética de treinamento” diz Koganeyama, em um tom suave.


    Sua dedicação é óbvia na refeição que ele preparou, e agora ele monta baixas mesas tipo tabuleiros chamadas de o-zen. Caqui avinagrados (kaki) e rabanetes daikon, pétalas de crisântemo envoltas em um molho de gergelim, cogumelos tempura, compota de marmelo chinês... O rico sabor e o delicioso paladar destes vários pratos faz-se difícil acreditar que todos eles foram preparados somente com ingredientes vegetais. E eles agradavelmente nos recordam o outono.
    Dogen certa vez escreveu sobre roshin, um estado de espírito aonde nós temos consideração pela pessoa com a qual nós estamos. A refeição que Koganeyama preparou certamente expressa o roshin - ele recebeu seus convidados com uma refeição muito saborosa. Com uma variedade limitada de ingredientes e praticamente sem desperdício algum, ele usa diferentes métodos de preparação e temperos para criar refeições para os monges em treinamento, ajustando os menus à estação e à quantidade de esforço físico que eles usam. Esta atenção aos detalhes é parte da vida diária de um chefe de cozinha tenzo em um templo.







    Uma Jornada pelo Zen




    Texto por Torikai Shin-ichi - Fotos Enomoto Toshio

    Kioto é uma famosa cidade e antiga capital, e seus templos são mergulhados na história, pronta para ser explorada. Alguns poucos destes templos pertencem à escola Zen de budismo. Eu visitei Kioto no outono, ansioso para adentrar no espírito Zen.
    Minha primeira parada foi o Templo Shokokuji, localizado ao norte do Palácio Imperial de Kioto. O dragão do templo manteve um sério olhar para os monges em treinamento ano após ano, por cerca de séculos. Eu pensei que seria uma boa idéia começar o meu tour saudando o dragão.
    Os degraus de pedra foram relativamente fáceis de escalar. No topo está o hatto, uma construção venerável aonde monges em treinamento aprendem sobre os ensinamentos do budismo. Assim que eu entrei eu vi o dragão, pintado no teto e olhando diretamente para mim. Diz-se que o propósito do dragão é certificar-se que os ensinamentos de Buda são respeitados. Não importa aonde você dentro do salão, os olhos dele olham fixamente para você. Eles certamente me paralisaram, e eu quase podia escutá-los dizer: “Falta disciplina em sua vida, então como você poderia compreender o verdadeiro espírito do Zen?”

    Uma jornada para descobrir o Zen leva até os jardins de Templos Zen. O que eu queria ver mais do que tudo era a mundialmente famosa “paisagem seca“ do jardim rochoso no Templo Ryoanji. Então eu parti de Shokokuji e rumei para oeste. Logo eu estava caminhando sob o portão de Ryoanji, então por um túnel de folhas de outono até os alojamentos do abade (hojo), aonde o jardim de rochas e areia está localizado.
    O jardim fica a parte sul do hojo, e estava banhado pela luz do Sol. Quinze rochas foram dispostas em um tapete de areia branca, cada uma com sua forma diferente das outras. É impossível ver todas as rochas ao mesmo tempo, não importa o quão frequentemente você mude seu ângulo de visão. Diz-se que esta impossibilidade indica a imperfeição da condição humana, ou reciprocamente indica o potencial de uma pessoa. “É verdade - só consigo ver 12 delas,” e “Daqui eu consigo ver 14” vem de um grupo de garotas estudantes, pegas em meio ao quebra-cabeças perto de mim.




    Eu parti do Templo Ryoanji, passei pelo Templo do Pavilhão Dourado (Kinkakuji), então subi uma colina ao norte, em direção ao Templo Genkoan, no distrito de Takagamine. Logo eu estava caminhado sob o charmoso portão do Templo, o que aparenta ter a face de um ou outro animal.
    O jardim é geralmente visto de duas janelas. Uma vez dentro do templo, eu vi que a janela do lado esquerdo é redonda, e a da direita é retangular. A redonda, chamada de “janela do despertar espiritual” (satori no mado), representa uma mente livre de obsessões, enquanto a retangular, a “janela da perplexidade” (mayoi no mado), representa uma mente em meio à dor associada ao nascimento, envelhecimento, doença e morte. E assim, quando eu olhei para o jardim através da janela redonda, estranhamente eu me senti em paz. As cores do outono apareciam graciosamente produzindo um ambiente de ângulo livre, com uma beleza especial em si. O tempo parecia quase parar enquanto eu contemplava a cena.




    No dia seguinte eu rumei cedo para o Templo Tenryuji no distrito de Sagano no noroeste de Kioto. As montanhas Arashiyama, suas folhas de outono reluzindo a luz da manhã, formavam um plano de fundo para o jardim diante de mim. A cena era tão dramática que eu prendi minha respiração.
    O lago, a principal característica do jardim é disposto de forma que você possa caminhar em volta dele. Eu fiz isso, fui pego em meio aos reflexos das cores do outono. Um monge passou por mim e disse no cadenciado dialeto de Kioto, “O lago tem um dragão nele”. Porém ele continuou: “Você pode ver como as pedras espreitando acima da água se assemelham à espinha dorsal de um dragão?” E de fato elas se assemelham.
    “É divertido imaginar coisas diferentes enquanto se aprecia o jardim, não é mesmo? Olhar para as coisas com perspectivas diferentes é importante. Se você fizer isso com qualquer problema que apareça, você será capaz de superá-lo,” disse o monge com um generoso e gentil sorriso, que depois desapareceu pelo caminho.
    Depois eu soube que ele é o Secretário Geral do Templo Tenrryuji! Eu fui honrado com uma lição inesperada do Zen budismo.




    Para finalizar a minha viagem, rumei para Daisen-in, um lugar venerável dentro do Templo Daitokuji. Quando eu cheguei os monges estavam ocupados arrumando os terrenos do templo.
    Em Daisen-in você pode praticar a meditação zazen, sentando-se de frente para o jardim. A grande extensão de seixos brancos, arrumados em cristas e sulcos, apresenta dois montes de seixos na forma de cones. O jardim representa o oceano, e o efeito é lindo. Eu sentei de pernas cruzadas na postura zazen, o jardim à minha frente e minhas costas eretas.
    O sumo sacerdote, Yamato Soki, me disse. “Limpe a sua mente de todos os pensamentos distrativos e tente deixar seu espírito puro. Se puder fazer isso, você estará livre.”
    Minha jornada para descobrir o Zen tornou-se de alguma forma uma jornada para descobrir a liberdade, para ter a mente livre das distrações da vida diária. E ainda, enquanto tentava meditar, pensamentos confusos surgiram em minha mente. O sumo sacerdote disse para livrar-me deles contando silenciosa e repetidamente até 10 em cada respiração. 1,2,3... Aí sim, minha mente agitada gradualmente se acalmou.
    No começo da minha jornada no Templo Shokokuji, os olhos do dragão passaram a mensagem “Você não fez o bastante para treinar sua mente e seu corpo.” Agora eu penso que posso ir para casa me sentindo um pouco mais livre do que antes.

     



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