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Egan 2020 Abril


No Japão com o Sensei 2

por Wenzel - Nihon - 24-jan-2020

3 Partes: Português / Español / English


NO JAPÃO COM O SENSEI 2 - Senpai Wenzel

SENSEI PONTUALMENTE ADIANTADO

Pontualmente adiantado Sensei bate uma única vez na porta do quarto. É sinal de que estamos de partida. O momento é de pegar a mochila já arrumada, pular nos sapatos preparados em frente à porta, devidamente apontados para fora, e alcançar o Sensei no corredor rumo ao elevador.

Com o horário “confuso” ainda, eu havia dormido um pouco no início da noite e depois passei a madrugada em claro, respondendo emails e escrevendo o primeiro texto da viagem. Às 5h20 o Sensei ligou para o quarto, anunciando que o dia reservava quatro missões a serem resolvidas, rapidamente enumerou cada uma e confirmou que sairíamos às 6h00.

Foi o tempo de fechar o texto, incluir algumas imagens e vestir kimono e hakama.

Precisamente às 5h52 sete minutos adiantado o Sensei bate na porta. Se batesse às 5h53, seriam seis minutos mais alguns segundos. Para não se atrasar nem estes segundos, os 7 minutos adiantados do Sensei, são tão precisos que tem alguns segundos de sobra. É o que chamamos no Niten de Horário de Sensei. Temos no Niten sempre horário de Brasília (GMT -3), geralmente marcado nos celulares e temos o “horário do Sensei”, precisos 7 minutos adiantados, que é o horário vigente no relógio de pulso do Sensei. E é esse que vale quando estamos com o Sensei. Especialmente em Gashukus e Shugyos. Sim, às vezes é meio confuso, eu também já achei bem confuso. Porque não manter um horário só e marcar um pouco mais cedo?! Mas justo por essa confusão, acabamos jogando mais energia na percepção do tempo, temos que fazer sempre uma pequena aritmética e ficamos mais conscientes do tempo em que estamos de fato. Funciona.


Deixamos o hotel de táxi e rumamos para o primeira destino. Às 8h da manhã já podíamos riscar dois itens da lista. Nos demos ao luxo de voltar à pé ao hotel, descobrindo como funciona bem o Googlemaps e vendo a vida na cidade amanhecer.

Um caminhão terminava uma entrega ou um reparo na via, não deu para saber, e o funcionário varria o asfalto com uma vassoura de palha. Não havia muita sujeira no chão, do outro lado da calçada na realidade não vi nenhuma sujeira, mas mesmo assim, qualquer sujeirinha deixada era varrida ali, e recolhida com uma pazinha. Cena pitoresca para um caminhão grande, e um peão todo paramentado, com a vassourinha de bruxa e a pazinha recolhendo um lixo delicado.





O Japão é muito limpo, isso quer dizer que limpam muito também e ou sujam pouco. Não seria limpo assim se ninguém fizesse o trabalho sujo, ou no caso aqui, um trabalho limpo. O Japão é muito educado, isso para mim sempre quis dizer que eles educam muito bem. Aprenderam a lição de Confúcio? Nunca fui à China para colocar isso em perspectiva. Mas a gente percebe que existe uma cultura grande da educação. O próprio Dojo é isto: um local do Caminho é necessariamente um local de aprender, e pela definição de Caminho, é um local de aprender a ver, perceber e viver a verdade. Lembro da epígrafe de meu primeiro trabalho escrito feito no Niten para o evento das “teses” que era uma frase de Van Gogh: “Aprender a ler, aprender a ver, aprender a viver”.

Há os pontos fora da curva no Japão que também aparecem nessa viagem, como quando nos deparamos na beira do rio do primeiro cooper matinal com uma sujeirada largada para trás. Pratos de plástico, restos de comida, embalagens rasgadas e latinhas de cerveja largados no chão ao lado de cinzas de uma fogueira. Aquilo foi um choque. A porcalhada inusitada no Japão se somou a outro ponto fora da curva, que era a placa para não deixar lixo no local que encontramos uma centena de metros mais adiante,... escrita em português! Ai caramba! Não preciso nem dizer qual foi a suposição lógica inevitável que a mente preconceituosamente concluiu nesse momento.


O Google obviamente é infalível e chegamos ao hotel, o hotel certo! Fazemos checkout, pegamos o trem bala rumo à 3ª missão. Trocamos de trem, outro trem, lotado desta vez, viajamos de pé. Pelo whatsapp quem manda notícias é o Rocha, former (former é mais bonito que “ex”!) Coordinator de Niterói, que acabou de chegar no Japão também, para uma estada acadêmica de poucos dias. O Rocha estuda metereologia, desenvolve traquitanas para satélites, presenteia fotos de espectros do sol da Nasa e poderia estar na série The Big Bang Theory.




Chat com Rocha e foto dentro do trem


Pelo visto, na série seria o Sheldon: tinha que observar que no rigor técnico as nuvens não são as mesmas no Japão.

“Eppure sono uguali” é minha resposta, pra ficar na linguagem nerd e pedir ajuda ao Galileu!

Chegamos em outra província. Táxi novamente. A impressão que tenho é que damos sempre sorte com os taxistas aqui. Ainda bem que teve um taxista marrento em Kumamoto depois, pra não parecer sonho.

Missão 3 do dia: check! Admiro esses checklists de pilotos de aviação, que criam seus processos para minimizar as falhas mesmo em 10.000 repetições. Aqui no Japão até o “flanelinha” (encarregado do estacionamento do castelo) tem seu checklist e consegue sacar sua caneta presa no bolso da camisa em menos de 0.237 segundos. Seguimos à missão 4 e pouco mais de uma hora depois missão 4: check!






Voltamos à estação do trem e almoçamos lá mesmo. Um macarrão com ovas de peixe. Mistura de italiano com japonês. O prato não é grande. Não se come muito. A medida é certa. Tanto melhor para nós, não ficar o resto do dia lento e cansado tentando digerir quantidades desnecessárias de comida. Diz que comer pouco, sem exageros prolonga a vida. Além disso não dá pra ir pra batalha de barriga cheia.

Esperando chegarem os pratos Sensei está animado! Sensei me encara com olhos gigantes, faz uma careta e proclama em tom solene: "Ganhamos o Dia! Você sabe por que?! SENKI!”, e faz o sinal de boxeador lutando.

Compartilho de coração a felicidade de resolver muitas coisas! Como é bom poder viajar por uma terra sem precisar ser turista, mas tendo coisas a resolver. De alguma forma, para mim, os lugares assim ganham mais vida, mais gosto. Consigo saborear melhor o local se tenho um propósito produtivo a cumprir e ter isso em comum com os locais. Não precisar me encaixar no papel de passageiro que vem apenas para tomar prazer enquanto os demais estão na batalha.
Resolvemos, assim dá mais gosto, Maravilha!

Agora a programação nos indica seguir viagem para mais uma província, fazer checkin no hotel e encerrar o dia com sentimento e cerveja de missão cumprida. Aquéééla cerveja depois da batalha, que dá tanto gosto!

Mas não seria simples assim. Os 7 minutos adiantados estão no sangue do Sensei já. Sensei começa a me consultar se poderíamos adiantar a missão do dia seguinte e ainda encaixar ela neste dia!?

Ainda falta uma viagem de shinkansen (trem bala) até chegar lá, teríamos que nos livrar das malas no hotel, e depois uma viagem de 40 minutos de carro até o local. O final do dia já se aproximando, ambos com o “confuso horário” começando a pesar à tarde, e a mim vem somada a noite anterior passada em claro. Sensei deixa a decisão comigo, se tentamos adiantar o cronograma, ou se seria “uma ponte longe demais”?

Temos que tirar umas fotos no local, e eu precisarei conseguir me concentrar nessa tarefa. Não seria uma foto qualquer. No trem bala estudo a trajetória do sol que ainda nos resta durante o dia e sua orientação de acordo com o local. Sensei e eu verificamos as diversas previsões meteorológicas disponíveis para o final da tarde. As possibilidades que a tecnologia oferece são incríveis. Os aplicativos permitem posicionar-se virtualmente no local exato da foto e ver onde estará o sol, pela imagem do satélite ver a probabilidade de nublado. Caramba! Os jovens mal podem imaginar o espanto que isso pode gerar para uma pessoa que nasceu antes do telefone celular, antes mesmo do PC em casa.

Dormimos no trem bala. Eu sempre lembrando de setar um alarme no celular, 10 minutos antes da estação na qual temos que saltar, só pra garantir de não cairmos no sétimo sono ambos e passarmos direto. O trem bala é tão rápido que uma soneca de meia hora pode ser como deixar de saltar de um avião numa paradinha rápida numa nuvem, e ir parar 150 quilômetros mais adiante. Acho que dormimos no táxi da estação para o hotel também. Apesar ou graças as sonequinhas estamos bem, adiantados com SENKI: é viável tentar conquistar o quinto objetivo naquele dia ainda sim! Ok, vamos lá! Temos que arriscar, pois no dia seguinte haveria vários fatores que poderiam comprometer a missão. Era melhor aumentar o número de tentativas e as chances de sucesso! Esratégia, Strategie, Hyoho!

E deu certo. Os Deuses recompensam quem cedo madruga! (e com o fuso horário invertido, isso fica fácil!). Check! Adiantamos um dia, e vendo depois, não teria dado muito certo no dia seguinte. Os Deuses recompensam quem usa a estratégia, isso sim!

Missão extra cumprida, somos os últimos remanescentes no local, isolados no mato. O sinal do celular para de funcionar e estamos ilhados, acompanhados de um gato e um monge, que nos socorre chamando um táxi.






Começamos o dia seguinte com um cooper matinal novamente. Já vai servir de reconhecimento da cidade, no caso do Sensei que vem sempre ao Japão para refrescar a memória sobre aquela cidade. Estamos em Kumamoto, terra histórica de samurais, de revoltas, dos levantes contra a reforma Meiji, ou seja palco real do filme “O último Samurai”, e os caminhos vão nos levando aos muros e ao castelo de Kumamoto.

Passando pela estátua de Kato Kiyomasa fazemos uma parada para foto. Sensei começa logo a contar alguns fatos sobre esse Samurai importante, bravo e muito reverenciado em Kumamoto. Eu lembrava que no interior de seu alto e marcante kabuto havia pergaminhos com o sutra da Nitiren Budista, mas o Sensei agora está falando de política, alianças, as disputas do período que antecedem a batalha de Sekigahara, as relações com o poder e Toyotomi Hideyoshi no período em que Kiyomasa havia sido enviado à Coréia, e deveria combater os mongóis, não so coreanos... O cooper continua, damos a volta nos muros do castelo, subimos a rampa, circundamos o grande parque ao redor até chegar à entrada do Castelo. É cedo de manhã ainda, mas o castelo permanece fechado o dia todo, em virtude dos danos causados pelo forte terremoto de 2016.




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Refrescamo-nos na fonte do santuário dedicado a Kato Kiyomasa e na caminhada de volta, Sensei vai me trazendo mais e mais fatos e personagens, intrigas e estratégias, que vão tecendo a história do poder, das conquistas e batalhas dos samurais do período entre os séculos XVI e XVII no Japão.

A cada instante entra um personagem novo no tabuleiro, sempre com nomes estranhos, nunca ouvidos antes, completamente escorregadios para o cérebro lembrar. Sensei fala deles todos como se fossem velhos conhecidos. Conta suas histórias e depois as histórias paralelas, “que as pessoas não sabem”.

Entendo que os próprios japoneses conhecem essas histórias de forma rasa, com não mais que 5 personagens, e com a mesma profundidade com a qual se ensina a inconfidência mineira ou independência no Brasil. Com alguns causos simplistas, anedotas rasas e versões oficiais chatas e alienantes. Já contada pelo Sensei, parece um Dostoiévsky ou Tolstoi, cheio de personagens (e nomes, difíceis de decorar!), em tramas humanas, estratégicas. Um Shakespeare e suas sinfonias de virtudes e falhas humanas.

Volta e meia o Sensei me testa para ver se estou acompanhando ou eu checo se o samurai em questão é qual estou imaginando, já que os nomes pra mim continuam lisos e escorregadios como pedra molhada com limo. Começo a conseguir alguma aderência ao correlacionar as histórias com as nossas histórias e personagens do Niten. As muitas unidades, nossas campanhas, nossas guerras, tudo isso também mantém paralelos com as aventuras dos feudos samurais e associações tornam-se inevitáveis. Sensei também faz a suas associações, e me revela algumas. Quem é quem, no Niten.








Uma história em especial, entre várias outras, mais espetaculares, mais políticas e decisivas de grandes batalhas eu gravo com mais carinho, já que ela simboliza tão bem essa sensibilidade e pensar no outro que tanto me impressionam na percepção do Japão. De quando Toyotomi Hideyoshi, senhor feudal conhece Ishida Mitsunari, este na época ainda um jovem monge. Em um dia desses extremamente quentes de verão Hideyoshi vem refrescar-se no mosteiro, e mesmo sem o conhecimento do abade, o jovem Mitsunari lhe traz um pote de chá gelado. Após tomá-lo e trazer alívio ao nobre senhor feudal, mesmo sem ser solicitado, o jovem traz-lhe uma segunda xícara de chá. Desta vez há menos líquido, e o chá não mais gelado, agora foi servido morno. Uma vez tomado o jovem traz uma terceira xícara de chá. Desta vez com menos conteúdo ainda, porém quente, numa sequência que vai com muito sentimento adequando o que se serve à experiência do outro, de satisfazer do corpo à experiência do paladar até o sentimento e tocar o espírito, cada qual na sua medida.

Na caminhada passamos ao largo do pavilhão que no terremoto teve suas bases desmoronadas exceto uma única sequência de pedras que ainda o sustenta. Está lá da mesma forma desde 2016. Sensei me chama a descermos por um caminho barranco abaixo para tirarmos uma foto melhor e comenta que aquela visão, aquela pedra solitária, é como se expressasse SENKI! A garra de lutar, combater. SENKI! Não desistir, não se entregar.






Hoje é Domingo. Pede cachimbo!

Mais tarde próximo ao almoço voltamos ao castelo, há muitas famílias e visitantes, lojas de comidinhas, lembranças, um museu, e topamos com um grupo de artistas com trajes de samurais prestes a encenar sua performance, cosplay-histórico. Sensei vai logo reconhecendo por um detalhe aqui e ali que samurai cada um está representando. Acho graça! Os artistas também estão de certa forma intrigados como foram decifrados por esse japonês… pero... Imagino que os japoneses talvez fiquem em geral intrigados com o Sensei, por o Sensei falar japonês, parecer japonês, agir como japonês, mas algo estar estranho indicando que talvez não seja “só” japonês?!

Após alguns fatos históricos para cá e para lá, um deles diverge com o Sensei sobre um ponto, mas quando chega o diretor do grupo, este confirma de que precisam capitular. A versão do Sensei confere! Sensei está alguns passos à frente, cheio de detalhes e é um entusiasta do tema. Inclusive o ator que estava batendo o pé naquele ponto, segundo o Sensei deveria estar é mancando, para representar certinho seu personagem. Há! Batemos uma foto para selar a paz e ganhamos um souvenir.






No final do dia pulamos o jantar, Sensei fica no hotel e eu saio para passear ainda na noite de domingo. É o final do fim de semana. Depois que escurece, as ruas ficam vazias em Kumamoto, mas há uma rua de pedestres coberta, espécie de galeria, que está apinhada de gente. Jovens, não jovens, casais, grupos, voltando da farra, voltando do passeio. Sento num banco e aproveito para ver a vida passar e acalmar a mente. A gente quando vai para outro lugar, outro país, demora um tempo para chegar. Se ficamos só correndo para cima e para baixo, é como se demorasse mais pra chegar.

Parece que o Japão hoje em dia está menos vidrado, menos maravilhado com a tecnologia que há 15 anos atrás. Naquela época havia muita “gracinha” nas lojas, na rua, em todo lugar com tecnologia, e parecia que a sociedade estava ávida em mostrar para si mesma como ela dominava e dispunha das últimas novidades em eletrônica, informática, etc. Chamava atenção como todos estavam vidrados no celular.

Agora estamos todos mais acostumados já, acho que tanto eles quanto nós. Isso tudo não chama mais tanta atenção, e a onda agora é se voltar pras pessoas mesmo. Me parece bom se estamos fazendo esse retorno.

No dia seguinte em Hiroshima, ao final de um dia cheio e chegada tardia no hotel, saímos à procura de um local ainda aberto para jantar. Aqui tudo fecha muito cedo. Estamos na primavera e a temperatura está mais que agradável, fresquinho, dá pra sair sem agasalho. Andando na rua comentamos o Sensei e eu, como é agradável caminhar assim despreocupado.

A sensação é a mesa que tivemos à tarde, quando estávamos numa floresta, também com Kamae desarmado, e um cervo veio para o lado do Sensei. “Sinal de Sorte” segundo o Sensei. Eu imagino. Um cervo ao lado é sinal de harmonia. Harmonia com tudo ao seu redor. Sorte e Harmonia talvez sejam sinônimos!

Aqui é tranquilo, é seguro. Não somente na floresta, estamos no centro da cidade agora, ao lado da estação. É realmente muuuuuito seguro. Podemos caminhar com o Kamae desarmado meeesmo. Imagina caminhar segunda feira às 20h30 nas ruas ao lado da Central do Brasil no Rio ou da estação da Luz em São Paulo. Essa quantidade enorme de energia que despendemos para um Kamae, aqui pode ser toda economizada. Podemos pensar em outras coisas. A mente pode se acalmar em devaneios.

Numa tarde no trem local, sinto de novo essa paz extrema, e imagino essa energia toda sendo acumulada, economizada, para ser despejada num treino cheio de energia no Dojo. Sim, pois não é porque não treinam um Kamae fechado ininterruptamente quando estão na rua, que o japonês está menos treinado para soltar um Kiai poderoso no Dojo! Claro que o treino constante fortalece. Mas sempre, sem pausa, também estressa, fadiga e esgota? Talvez?! Ai Caramba!






Aqui no Japão, cada momento nos traz uma reflexão estimulante. Tenho que tomar nota sempre rápido no caderninho, pois 30 segundos já é suficiente para o pensamento se perder em outro devaneio ou reflexão, e esquecer a anterior. Aí fica aquela sensação terrível de ter esquecido uma ideia! O “confuso horário” deve ajudar na abestalhação.

Os restaurantes estão fechando, Sensei puxa o passo na frente enquanto eu ficava para trás tomando nota sobre os kamaes. Sensei já emenda mais uma, que anoto também: “No Japão as pessoas têm maior consciência do tempo, dos minutos:1 minutos, 2 minutos, 6 minutos, 7 minutos. Todos correm mais, dão mais valor ao tempo…”. É verdade. Aqui 6 minutos é diferente de 7 minutos!, a gente sente cada segundo passar com mais atenção. É como os grãos de arroz, aqui dou uma atenção enorme a cada um! Parece que cada um foi preparado, lavado e cozido separadamente. Estão todos sempre brilhantes, perfeitos, na forma, textura, tamanho. Você não deixa nenhum grão se perder no pote ou sobre a tábua de sushi, tal qual como os minutos da vida.

Chama a atenção como, em comparação ao Brasil, as coisas aqui são zack, zack! A pessoa, faz, agradece, e vai. Segue pra próxima. Sem perder tempo.

Passamos em frente a uma loja de conveniência e eu me alerto com um grupo de 5 jovens em bicicletas convergindo em alta velocidade direto uns contra os outros e todos contra a vidraça da loja! No segundo seguinte, não sei como, aquela embolação se resolveu e todos já encostaram suas bicicletas uma do lado da outra e já estavam entrando na loja entrando pelos corredores procurando algo. Os transeuntes todos seguindo seu rumo inabalados. Mais quinze segundos depois, descobriram que não havia na loja o que procuravam e já estavam nos passando de bicicleta na calçada novamente.

O Sensei por vezes tem uma visão mais crítica dos jovens no Japão. Numa estação de barco tenho anotado no caderninho sobre o Sensei comentando dos jovens com olhar de peixe morto. Num ônibus, a crítica aos jovens se sentando de forma larga nos bancos, sem se incomodar se havia pessoas mais velhas em pé, ou faltando espaço para os demais. Mas principalmente sua leitura de que estão todos lá, os jovens no Japão, em suas trajetórias sendo preparados para se tornarem robôs, robozinhos da sociedade, do moedor de carne do Japão. Virando robôs e se encaminhando para o “matador”.

Tento não me confundir ao ver os jovens no Japão e compará-los apenas aos jovens do Colégio Etapa no Brasil (colégio de classe média alta da Vila Mariana em São Paulo, massivamente frequentado pelos filhos da colônia japonesa.) Lá no Etapa estão também indo pro “matador” do vestibular talvez. Mas nosso matador do jovem comum no Brasil é outro provavelmente, no contexto geral. Nosso jovem é o que corre o risco de ser cooptado pelo tráfico e/ou que é negro e pobre e será morto pela polícia. Matador por matador, temos os nossos também.

Sensei comenta do repórter Yamagata, japonês, relativamente jovem, residente no Brasil e que está escrevendo uma série de matérias sobre o Niten para o Jornal Nikkey de São Paulo. Sensei conta como esse repórter japonês está justamente se deliciando com a história do Instituto e do Sensei, porque o Sensei conseguiu, contra todos os paradigmas da sociedade japonesa, fazer o que queria! Como Sensei conseguiu escapar do formatador de gente!

A fórmula “Uenzel”, é sempre aquela: “Disciplina e Festa!”.

Sim, disciplina e festa: nesta viagem, estamos fazendo muitas coisas em poucos dias. Com o ritmo do Sensei, emendamos uma coisa atrás da outra. O ritmo é forte. E isso tudo não sem ter sempre um espaço para a cerveja, no final do dia, um banho no onsen, ou um momento de reflexão e cochilo. Mas o ritmo é intenso. Sensei está sempre puxando para frente, para adiantarmo-nos no tempo. Fico imaginando essa viagem num grupo, sem essa chama na liderança, sem esse SENKI, quando como numa caminhada, todos os integrantes parecem estar disputando entre si para ver quem anda de forma mais relaxada e menos ansiosa de chegar, demonstrando mais “coolness” e alongando mais a coluna para trás, freiando o avanço.

Não aqui com Sensei, aqui a gente corre mesmo!
“Sabe Uenzel, tem gente que tem vergonha de correr. Teve uma época que pensei que com a idade a gente tem mesmo que parar de correr. Mas depois, vi que não! Não tenho vergonha de correr. Corro mesmo! Isso me mantém jovem!”

Estamos no ônibus, justamente sentados apertados entre os jovens, e Sensei termina a conversa sobre o espanto do repórter japonês como Sensei escapou da caixinha comentando que é por isso que, quando aparecem os praticantes de outros professores, querendo ingressar no Niten como segundo Dojo, para aprender aqui também, e com isso via regra trazer confusão e questionar os valores do Niten trazendo a cultura massificada, Sensei não quer mais perder tempo com isso. Melhor não vir. Por isso, emenda o Sensei, aquele praticante que enviou email e do qual falamos no dia anterior, melhor nem vir. Só nos tira de nosso Caminho. Não foi sem lutar que o Sensei conseguiu escapar.

Quando saltamos do ônibus acabamos passando também em uma loja de coisas malucas. Bujingangas, bujigangas, Totoros e bujingangas. Enquanto eu tento achar alguma coisa para levar de lembrança para o pessoal no Brasil, e rodo a loja algumas vezes (ainda sem achar os Totoros), Sensei já está se divertindo num mostruário de bottons, com mensagens inusitadas. Está lá escolhendo, achando graça sobre este e aquele que levará para várias pessoas. Seja porque cai como uma luva, ou pela ironia!

Eu ganho o botton de “Yasashii Senpai”, “Senpai bonzinho” (Até agora ninguém teve coragem de dizer se foi por ironia ou não.)




“Yasashii Senpai”


Sensei vai me mostrando os outros que já escolheu! Dá risadas!
Por fim, Sensei acha um que escolhe para si mesmo!
“Sou Livre!”



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