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Café com o Sensei

Pensamentos e comentários do Sensei


Últimas postagens:

05-jul-2007

Ser um Pequeno Macaco Alegre

A imagem de um mestre em um filme costuma ser aquele cara sério, que fala pouco e que tem uma cara de bravo. Ou então, aquele velhinho, de barba e cabelos brancos que passam a imagem de alguém que já viveu bastante para prever o futuro.
Ambos aparentam seriedade, falam pouco e, no filme, costumam ser os coadjuvantes na luta contra os bandidos.
Na realidade, também não é tão diferente.
Mestres que falam pouco, sérios e carrancudos estão em qualquer lugar. 
Se não são, têm o sorriso que só aparentam humildade, mas que no interior tem o ego inflado a ponto de explodir.
Talvez tenham que ser assim para serem reconhecidos, respeitados. Fazer imagem.
Será?
É certo que no mundo tem mais gente que não enxerga um grande mestre num simples homúnculo e preferem acreditar que o grande mestre é aquele parecido com o que viu no filme.
-Ah, este não é um grande mestre. Ele sorri demais. Fala demais. Não me parece forte. Ele errou a técnica - pensam dentro de suas preconcebidas cabeças.
Não, não é por aí, meu caro.
Para que aparentar ser duro como uma pedra? Pois saiba que têm muitos "mestres" sérios e de cabelos brancos que se aproveitam das aparências para enganar você. 
E mais: não falam mais porque não sabem!
Disse um grande monge budista que o maior orgulho dele era o de ser um pequeno macaco alegre capaz de ajudar os outros.

É certo que, por aparentar ser um pequeno macaco alegre, os menos avisados, ou leigos no Caminho, acabam por cometer gafes como dar uma palmadinha nas costas ou falar demais, esquecendo as normas da etiqueta ou os katas do Bushido.
Lá no Japão, já vi muito ocidental ultrapassar os limites com o mestre, por achar que ele estava mais "aberto". Um simples sorriso do mestre, e aí começam a soltar as asinhas, falando mais do que devem e ultrapassando os limites.
Preste atenção, pois o que vou lhe dizer vale para todos os mestres.

"O mestre de verdade pode ser um pequeno macaco alegre 
que faz o seu treinamento na calada da noite
no inferno.
que repousa durante o dia
no coração".

Não confunda as coisas.

mestre Gosho MotoharuDia do Samurai 2007
mestre Gosho MotoharuDia do Samurai - 2007

04-jul-2007

Rinpoche na Jogada

A matéria que li ontem me deixou indignado.
Estava escrito que, segundo estudos científicos, o homem mais feliz do mundo se chama Yongey Mingyur Rinpoche. 
O método se baseia num exame que escaneia o cerébro e foi feito em seu estado de meditação, na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. 
"Uma calma e alegre experiência que jorra de dentro da gente e não depende de circunstâncias exteriores" - é, segundo ele, o conceito de felicidade. Interessante ponto de vista. Mas ao meu ver, não absoluta. 
E se não fosse em estado de meditação? Não sei qual teria sido o resultado.
Mas, padronizar o conceito de felicidade por mapeamento cerebral é perigoso. Para quem não sabe, em medicina há disputas de gigantes para ver quem "descobre" primeiro e "dita" as regras. Tudo por dinheiro, é claro. Os pacientes? Contenha-se com o que vai ler:
- São apenas números.
Rogo que Rinpoche tenha sabedoria suficiente para não entrar nesta jogada...

03-jul-2007

Kendo x Kenjutsu

-O Sensei poderia dizer a qual graduação de kendo corresponderia um shodan de kenjutsu?- foi a dúvida de um aluno.
-Antes de responder à sua pergunta, creio que será interessante investigar os fatos históricos. No princípio, era o kenjutsu. Isto lá pelos anos de 1300, na época das Cruzadas. Quando o Japão mergulhou na época de paz, no período Edo, as artes samurais, que tinham o sufixo jutsu em suas nomina (ex. ken jutsu, kyu jutsu*, yari jutsu*, ju jutsu*, naginata jutsu*) adotaram o sufixo "do"*. Ou seja, as técnicas, que antes tinham como objetivo o puramente marcial, voltaram para o objetivo na construção de caráter dos samurais.
Em meados finais do periodo Edo, surge o bogu*e shinai*, a arte da espada, kenjutsu, continuou com o objetivo "do", kendo. Tecnicamente falando, longe de ser o kendo, que ouvimos falar hoje.
O termo kendo que se fala hoje, se refere a profunda adaptação do kenjutsu feita no pós-guerra (1950), com conotação fortemente desportiva, para que fosse autorizada a prática da espada pelo HQ americano. Ou seja, posturas que lembrassem kenjutsu, ou samurais, possivelmente teriam influência sobre o espírito nacionalista do Japão, assim pensavam os americanos. 
Por esta razão, o kendo, esporte de que falamos hoje, ressurgiu nos anos 1950 sob a forma ainda mais competitiva e regrada do que tivera antes de 1945, e o mesmo ocorrendo com a naginata do, que foi desenvolvida especialmente para uma forma esportiva para mulheres.
Quando falamos em kenjutsu, caminhamos na direção oposta. Procura-se estudar as técnicas antigas e experimentá-las com o uso de bogu - expliquei ao meu aluno.
Sabia o que ele queria dizer. Fitei-o por alguns segundos e disse:
-Não há correspondência. É como comparar banana com abacaxi.

02-jul-2007

Café Maduro

Um aluno me enviou email :

"Nestes dois dias que treinei com o sensei, pude perceber o quão longo o caminho é, 
e deve ser percorido com seriedade e insistência, sem se desviar. 
Lutando com o Sensei, percebi que seu espírito estava calmo, porém seus movimentos 
estavam ágeis e precisos. 
Espero continuar treinando insistentemente até que, quem sabe um dia, eu possa lutar com o Sensei novamente, porém com o espírito calmo e os movimentos precisos como os do Sensei. 
Domo arigatou gozaimashita por passar para todos nós a verdadeira cultura samurai. 
Sayounara."

A minha resposta: 
- Cada estágio tem o espírito apropriado. Agora, no estágio em que se encontra você tem que ser como fogo: ofensivo e davastador. 
Uma vez estando ao meu lado, verá muitas paisagens interessantes no Caminho." 

É como o Café. Não adianta colher verde. Tem que esperar para colher maduro. 
-Mais um capuccino por favor...

29-jun-2007

Diferanças 6 - Escolha dos Katas

Para encerrar a questão citada nestes últimos dias de Café ( 25 de junho - Diferença 3 Inspiração Divina ) coloco o último parágrafo, que é na realidade, apenas,  a continuação do texto original: 

"Por fim, mestre Otake nos deixou claro que o verdadeiro valor dos katas não está somente no fato de eles refinarem a habilidade marcial do praticante - aguçando as suas reações e melhorando o seu equílibrio, a sua capacidade de julgar o momento correto de atacar, a sua velocidade e a sua precisão - mas essencialmente no fato de instalarem no aluno o autocontrole e a disciplina. Os katas, ao mesmo tempo que ensinam as pessoas a matar, ensinam-nas também que não convém usar a violência".

É preciso entender que o treinamento dos katas é imprescindível para a evolução no Caminho da Espada. 
Mas o que é imprescindível mesmo, é buscar os katas verdadeiros. Os que valem a pena serem treinados, os que terão o seu precioso tempo dedicado, pois katas, existem aos "montes" por aí. 

Quando de manhã, tiver compreendido a verdade 
ao entardecer, morrerá tranquilo...


Sensei, mestre Otake e os colegas da velha época 

28-jun-2007

Não foi Niten Ichi Ryu

Parece que está havendo confusão em relação ao Café do dia 31 de maio ( 31 de maio - Despertei ). 
Foram quase 4 décadas no Caminho da Espada. Vários mestres e colegas que estiveram comigo para forjar a espada do Método KIR. 
Várias modalidades e estilos. Kenjutsu, Kendo, Naginata jutsu, Jodo, Iai, Yari jutsu, Kusarigama jutsu , Tanjo jutsu, Jitte jutsu, Bojutsu, Yawara e por aí vai. 
Monges zen e sacerdotes também têm influência sobre o Método KIR. 
Alguns imaginaram que o soke citado no Café foi do Niten Ichi ryu. 
Não foi. 
Amanhã fecho a sequência de pensamentos do mestre Otake. (Diferenca....)

27-jun-2007

Diferença 5 - ARMA DE BRINQUEDO

"Em terceiro lugar, mestre Otake acha que o embate de estilo livre pode gerar maus hábitos nos alunos. Os praticantes começam a "segurar" os golpes, ou seja, a parar a espada antes que seus movimentos atinjam a plenitude da força e do poder de penetração. Além disso, no torneio, um fator de competição começa a substituir a cooperação, e a responsabilidade e o perigo de se ter nas mãos uma arma de verdade são substituidos pela atitude mental do esportista que maneja uma arma de brinquedo". 

Embates sem proteção. Lembro-me da época em que treinava karatê e tinha que me "conter" para não machucar os colegas. Acabava o treinamento meio que frustrado. Neste ponto, particularmente, consigo "extravasar" toda a minha energia e força sobre os adversários nos combates de  kenjutsu, utilizando-se o bogu. Sem dúvida, suando horrores! 
Sobre o torneio. No Instituto Niten,  procuro limitar a 01 torneio por semestre. Cooperação, responsabilidade e seriedade.

26-jun-2007

Diferença 4 - AÇÕES IMAGINÁVEIS

"Em segundo lugar ( 25 de junho - Diferença 3 Inspiração Divina ), a divindade e a perfeição são coisas correlatas; os movimentos dos katas abarcam quase todas as ações imagináveis que podem ser feitas com uma espada, e é quase certo que as que não constam dos katas simplesmente não teriam valor de combate" 

Ao longo das décadas, tenho estudado e pesquisado dezenas e centenas de katas e o fruto desta pesquisa tenho colocado nos combates de kenjutsu, onde os katas são aplicados de forma segura, no combate com bogu*, como você poderá constatar indo a qualquer treino do Instituto Niten. 
Aplicar estes katas antigos com bogu é, tomando as palavras do mestre Otake Risuke: "abarcar todas ações imagináveis com a espada".

25-jun-2007

Diferenças 3 - INSPIRAÇÃO DIVINA

Citei no meu livro Shin Hagakure um dos meus grandes mestres que me ajudaram a despertar ( 31 de maio - Despertei ). 
Mestre Otake Risuke, Shihan* do estilo Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu. 
A matéria que vou lhe mostrar a partir de hoje foi escrita em 1983 e fala do que o mestre Otake pensa sobre o treino dos katas antigos em relação ao kendo, e que vou te apresentar a cada Café. 

".....É interessante notar que esses alvos estratégicos para um espadachim-guerreiro são, em sua maioria, simplesmente ignorados na forma esportiva de esgrima, o kendo. No kendo, os alvos são o topo da cabeça, a garganta, os ombros, o centro e os lados do peito e a parte de cima das mãos e dos pulsos. Um espadachim trajado com a armadura tradicional está totalmente protegido em todas essas partes do corpo. Por isso, o valor real de combate do kendo esportivo é praticamente nulo. 
No kendo esportivo, o estudo dos katas tem pouco relevo........ Em diversas ocasiões, perguntamos a mestre Otake o porquê disso. 
Ele nos explicou que, em primeiro lugar, existe a crença firme de que os katas são fruto de uma inspiração divina. 'O Mestre Fundador recebeu-os do céu numa visão e depois registrou-os para que fossem transmitidos perpetuamente aos seus sucessores. Para que, pois, estudar o que é terreno quando se tem nas mãos o que é celeste?' "


ten: céu

*shihan: mestre dos professores

22-jun-2007

Diferença 2 - Caminhar

Você pode baixar qualquer vídeo de kendo no You Tube e constatar que os lutadores não trocam os pés, ou melhor, não caminham. Sempre o pé direito está a frente e o esquerdo atrás.

Em kenjutsu, é diferente. A partir da faixa vermelha (4° kyu), você aprende a lutar com os pés livres. Andando.

"O treino foi de kenjutsu, sucessivas lutas. Todos lutaram com o Sensei. Por coincidência foi minha primeira luta. Não me lembro de ter acertado algum golpe. Sensei  andava. Sempre que tentava avançar, levava um golpe, uchigote e vários tsuki. De alguma forma me sentia desestabilizado pelo andar. Depois, no final do treino comecei a entender por que a movimentação deve ser igual a do cotidiano...
Domo arigato gozaimashita Sensei! "

O episódio acima ocorreu no domingo, dia 03, quando fui ao Rio de Janeiro.
A frase abaixo foi escrita há 500 anos, pelo samurai mais famoso de todos os tempos:

"O movimento dos pés deve sempre seguir o ritmo do caminhar. Eles não devem ficar saltitando, flutuando, nem podem estar presos ao chão"
pag 62- Pergaminho da Água - O Livro dos Cinco Anéis, Go Rin no Sho
Miyamoto Musashi

 

Miyamoto Musashi sensei (do seriado na NHK) - caminhar




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